Um sacerdote numa pequena vila

“Após cumprimentar-me, meu amigo me disse com franqueza: Venho ajudá-lo, se você está disposto a se deixar ajudar. E, em qualquer caso, lhe direi honradamente o que penso da sua atitude...”. Um sacerdote da sociedade Sacerdotal da Santa Cruz conta sobre uma conversão que transformou sua vida...

Testemunhos
Opus Dei - Um sacerdote numa pequena vila

“Ainda que tenham se passado muitos anos, lembro-me inclusive de detalhes os mais insignificantes de uma conversa que mantive com um companheiro meu. Ambos exercíamos nosso ministério sacerdotal em uns povoados de montanha.

Eu havia saído da universidade há pouco tempo, mas em compensação, fazia anos – não muitos – que sabia o que era viver no meio da neve bastantes meses ao ano. Mas no dia a que me refiro, não veio ver-me para me falar da abundante neve que não demoraria a chegar, nem para dar-me umas aulas de esqui e assim não deixar sem missa os povoados quando chegassem os temporais.

O motivo era bem outro e quase inimaginável para mim. Ele sabia que as sete casas e as 35 almas que viviam no povoado onde eu residia, eu as havia aceitado, mas não digerido. E como não estava disposto a que me convertesse em um amargurado ou em um rebelde, veio com ares de cirurgião e decidido a realizar uma operação tão dolorosa como indispensável. Nunca lhe agradecerei bastante sua fortaleza e sua caridade, tanto mais destacáveis quanto meu trato em relação a ele não se distinguira pela delicadeza.

Depois de umas palavras de saudação disse-me com franqueza: “Venho ajudar-te, se estás disposto a deixar-te ajudar. E, de qualquer forma, te direi honradamente o que penso da tua atitude". E sem que me houvesse minimamente recomposto de uma colocação à qual não estava acostumado, acrescentou: “Tu e eu nos fizemos sacerdotes para servir, para obedecer, e para ser santos: não para fazer carreira ou seguir nosso capricho. A mim – que como sabes, sou da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz – me repetiram isso muitas vezes e posso assegurar-te que me tem feito muito bem. Leva-o à tua oração pessoal diante do Sacrário e recobrarás a paz e a alegria".

Um pudor elementar impede-me de escrever o que aquelas palavras supuseram para minha vida interior. O que não quero deixar de assinalar é que poucos meses depois pedia a admissão na Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz. Pouco mais tarde, graças a Deus, João Paulo II a aprovaria como associação sacerdotal intrínseca à prelazia pessoal da Santa Cruz e Opus Dei.

Em agradecimento a Deus e ao romano Pontífice – sem esquecer-me do instrumento do qual se serviu a divina Providência para manifestar sua inesgotável riqueza espiritual: São Josemaria Escrivá de Balaguer –, pois estou consciente do enorme bem que isso supõe para a Igreja e para os sacerdotes diocesanos em particular, estou retomando umas recordações escritas há anos, cujo conteúdo é mais próprio de uma confidência com um amigo do que de um website. Que o rubor que me produz fazê-lo seja uma demonstração filial à Santíssima Virgem, tão ligada à vida da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, e possa ajudar outras pessoas – sacerdotes seculares – a dar graças a Deus, Pai das eternas misericórdias!

Membro ativo do presbiterado diocesano

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção desde os primeiros momentos ao receber a atenção espiritual do Opus Dei foi a insistência com que me falavam da preocupação que devia sentir pelos demais sacerdotes – por todos – e a ajuda humana e espiritual que devia prestar-lhes.

O delineamento teológico não me chamou a atenção, pois sabia bem que entre os sacerdotes existe uma unidade e fraternidade sacramentais, como consequências da comum participação no próprio sacerdócio de Cristo através do sacramento da Ordem. O que me impressionou foram as consequências concretas – cheias de simplicidade, espontaneidade e vida – que dessa verdade teológica se derivava. E não em alguma ocasião especial ou solene, mas de modo ordinário e habitual. Mais tarde cheguei à conclusão de que isso é sentir-se membro do presbitério diocesano.

Eu era muito jovem e graças a essas concretizações fui aprendendo, por exemplo, que devia estimar e querer bem – não apenas tolerar – aos sacerdotes idosos; estima e afeto que deviam mostrar-se em coisas concretas: visitá-los, consultá-los e admirar sua fidelidade.

A experiência veio a demonstrar que a fraternidade sacerdotal vivida sem alardes, mas em profundidade, une sem dificuldades a prudência das cãs com o entusiasmo e vigor juvenis, e derrete como a cera as muralhas da incompreensão, isolamento, ou receio, que podem levantar a soberba altaneira ou a desconfiança.

Cordilheiras que pareciam inacessíveis se convertiam em caminho pisado, trocando impressões, tomando uma xícara de café, trocando confidências de amigos, confessando-se mutuamente e pondo um pouco de sal sobrenatural nas miudezas da vida cotidiana.

Quando, com o passar dos anos, tive como pároco um sacerdote de mais idade, pude comprovar de modo habitual que a fraternidade sacerdotal cria uns laços tão fortes que nada têm a invejar daqueles que se baseiam no sangue. Não é que desapareçam as limitações e misérias pessoais e alheias, mas sim que ficam embalsamadas com o perfume da compreensão, do realismo e – às vezes – do perdão mútuo e sacramental.

Outra coisa que me impressionou vivamente desde minha adscrição à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz foi o amor aos enfermos. Durante meus anos de seminarista, sobretudo quando se aproximava a data de minha ordenação sacerdotal, havia meditado mais de uma vez nas palavras de São Mateus relativas ao juízo final, nas que expressamente se fala de visitar os enfermos, vendo neles o próprio Jesus Cristo.

Porém, ainda que pareça estranho, minhas meditações se referiam às almas que um dia me seriam encomendadas. É possível que alguma vez também se referisse aos sacerdotes. Contudo, não deviam ser muitas, pois ainda me lembro da atitude de surpresa gozosa que me produzia ouvir, detalhe após detalhe, sobre esse particular.

Por outro lado, comecei a descobrir horizontes com os quais nem sequer havia sonhado. Referindo-se aos ensinamentos e à vida do fundador do Opus Dei – para quem a receita era ter um coração de mãe – me ensinaram que havia que perceber se um irmão sacerdote não estava bem, se estava demasiado magro ou demasiado gordo, acompanhá-lo ao médico, estar junto a sua cabeceira, principalmente se estivesse internado em uma clínica ou hospital, pôr todos os meios humanos para que se curasse e, ao mesmo tempo, deixar tudo nas mãos de Deus e, especialmente no caso de enfermos crônicos, ajudá-los a santificar essa situação.

“Minha vinculação à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz reforçava minha condição de sacerdote secular diocesano

Com o correr dos anos, comprovei a importância que tinha insistir na atenção espiritual aos sacerdotes enfermos, sobretudo quando se sabe que, se Deus não faz um milagre, a situação é irreversível. Que maravilha poder levar a Sagrada Comunhão a u sacerdote enfermo, confessá-lo com frequência, administrar-lhe a Unção dos enfermos e dar-lhe o santo Viático! E pode ocorrer que se passe por alto – ou se desvalorize - tudo isso.

Porém, não seria fiel à verdade se afirmasse que o tom habitual da preocupação pelos sacerdotes se refere aos anciãos e aos enfermos. Tanto na direção espiritual, como nos outros meios de formação permanentes, se insistia nas circunstâncias normais. E o normal é o sacerdote que se tens ao lado, aquele com quem trabalhas ou daquele que, por uma ou outra razão, és amigo. A esse havia que dedicar esse tesouro que é o tempo. Um tesouro que não se podia desperdiçar. Por isso, havia que superar a simples camaradagem ou o simples companheirismo, para dar lugar a uma amizade fraterna autêntica e verdadeira.

Por conta desta amizade vem bem falar de coisas íntimas: penas, alegrias, dificuldades, sonhos, trabalho etc. E quando a amizade tivesse alcançado níveis bem altos, havia que falar de Deus, da frequência em receber o sacramento da Penitência, da generosidade no sacrifício, do zelo ardente pelas almas, de disponibilidade total, de amor à pobreza, efetiva e afetiva, da direção espiritual, de saber perdoar e sorrir, de tratar de contrair a “enfermidade do trabalho apostólico", etc, etc. E tudo isso sem a pretensão de dar lições a ninguém, sem sentir-se superior aos demais – mais ainda, aprendendo tantas coisas deles – ainda que sem deter-se por causa das próprias misérias.

Nada sem o Bispo

Em razão do estudo da teologia, e principalmente do doutorado, havia tido a necessidade de ler os textos dos padres apostólicos. Havia entre eles um que já então era muito citado quando se falava do sacerdócio. É muito curto, mas muito incisivo. Não por acaso, pertence ao sábio Santo Bispo de Antioquia, Santo Inácio. Referindo-se à unidade que deve existir entre os sacerdotes e o próprio bispo, diz lapidarmente: Nihil sine episcopo, nada deve fazer-se contra o critério do bispo.

Como ocorre com muitos assuntos que se estuda, eu entendi o texto. Mas não me detive – pelo menos como devia – em tirar as consequências que levava consigo. E, sem dúvida, nem me passou pela cabeça examinar as relações com o meu bispo à luz deste princípio.

Quando me associei à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, o texto adquiriu uma grande importância, até o ponto que, pelo menos uma vez por semana, comecei a ter que examinar-me sobre suas exigências. Ainda que de início não entendia bem esta importância, não demorei a entender que não podia ser de outro modo. Com efeito, segundo a mensagem espiritual do Opus Dei, a adscrição à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz não mudava meu estatuto teológico e jurídico, pois continuava sendo, única e exclusivamente, sacerdote secular incardinado a uma diocese e dependente de um bispo determinado. Tratava-se de uma chamada especial a santificar-me em meu próprio estado.

Portanto, minha vinculação à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz reforçava minha condição de sacerdote secular diocesano, dentro da qual a figura do bispo ocupa um lugar muito importante ao ter que exercer meu ministério, em todas as suas vertentes, segundo suas indicações, e em íntima união com ele. Minha grande e gozosa experiência é que nunca me senti como formando um grupo à parte, tão pouco tem havido em meu ministério sacerdotal, uma dupla obediência.

Portanto, se eu queria santificar-me de verdade, tinha que estar em sintonia de pensamento e ação com o próprio bispo. Esta sintonia, por outro lado, ia muito mais longe do que o mero “não estar contra", ao envolver-me em uma órbita de amor e colaboração tão íntima e sincera como a que vigora entre os pais e os filhos.

É evidente que as exigências práticas destes princípios são muito grandes e rigorosas. Eu tinha que querer a meu bispo reconhecendo com satisfação o lugar que ele ocupa na diocese por vontade de Jesus Cristo: mestre e pastor.

Também tinha que viver minha condição de colaborador seu na tarefa de santificar os fiéis, no lugar que ele acreditasse mais oportuno, o que supunha estar atento a todas as suas indicações episcopais para levá-las à prática com prontidão, inteligência, fidelidade e total disponibilidade, inclusive nos casos em que me encomendaram tarefas pouco atraentes, humanamente falando.

Por outro lado, devia tomar consciência de que a responsabilidade que pesa sobre os ombros de um bispo é muito grande, e que exige muita graça de Deus e muita santidade. Minha comunhão íntima com ele deveria levar-me a rezar todos os dias pelas suas intenções, principalmente quando soubesse que tinha especial necessidade da minha oração.

Além disso, tinha que estar plenamente disponível para secundar a tarefa que me encomendasse, fosse gozosa ou custosa, vendo nela a mão de Deus. Somente assim poderia obedecer sem objeções, e sim de modo alegre, livre e incondicional.

Meu bispo, além disso, pela sua condição de homem, tinha suas limitações, inclusive físicas; as quais, no contexto em que exponho, deveriam ser um motivo a mais para dar-lhe carinho, inclusive humano, e ampliar a capa da compreensão e da desculpa, levando à prática a recomendação paulina: “levai uns as cargas dos outros".

Sem jactância da minha parte – pois tudo é graça de Deus – posso dizer que minha associação à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz me ajudou a amar de verdade os meus bispos, a rezar por eles todos os dias na Santa Missa e no Santo Rosário, a aceitar com alegria nomeações que em outras circunstâncias talvez não tivesse aceitado bem, a sentir-me plenamente identificado com suas orientações pastorais – sem que isto tenha sido obstáculo para manifestar-lhes lealmente minhas opiniões –, a lutar seriamente para não murmurar sobre eles e a arrepender-me sinceramente se alguma vez tivesse caído nessa tentação, e, finalmente, a estar contente nas diversas tarefas que me encomendaram, fossem humildes ou brilhantes.

Posso dizer que até humanamente tem valido a pena, pois isto me trouxe serenidade e paz interiores e uma alegria cujo sabor está reservado aos que a provam, ainda que às vezes, tenha sido envolta em lágrimas físicas ou morais.

Depois do que foi dito, é fácil compreender que minha adscrição à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, não me criou a menor dificuldade em relação à minha condição de sacerdote secular diocesano. Ao contrário, a facilitou e potencializou, pois me levava a amar com obras os meus irmãos sacerdotes, sem distinções de idade, formação ou caráter; a ter uma comunhão hierárquica sincera e leal com meus bispos; e a trabalhar pastoralmente com as almas que, de acordo com as circunstâncias, me haviam sido encomendadas.

Por isso, agradeço muito a meu Pai Deus que um dia, inesperadamente, viesse um sacerdote à pequena vila, na montanha, de poucos habitantes e muita neve, onde eu estava sem muito boa vontade, para abrir-me horizontes e transmitir-me sua alegria de servir, que Deus lhe havia concedido.

José Antonio Abad

Professor da Faculdade de Teologia do Norte da Espanha.