Uma lembrança de 82 anos

A 28 de março de 1925 celebrou-se na igreja de São Carlos de Saragoça a ordenação sacerdotal de São Josemaria. Dois dias depois, o fundador do Opus Dei celebrou na igreja de Nossa Senhora do Pilar a sua primeira missa. Assim o conta André Vázquez de Prada na biografia do santo.

Opus Dei

A cerimônia da ordenação sacerdotal de Josemaria teve lugar na igreja de São Carlos, no Sábado de Têmporas, dia 28 de março de 1925. Conferiu-lhe o presbiterado D. Miguel de los Santos Díaz Gómara.

O ordenando seguiu com os cinco sentidos as cerimônias litúrgicas: a unção das mãos, a traditio instrumentorum, as palavras da consagração... Emocionado e confuso perante a bondade do Senhor, considerou como nada as dificuldades passadas desde o dia do seu chamamento, e deu graças como um terno apaixonado.

Fez os preparativos para a sua Primeira Missa. Não era possível qualificá-la como solene; ia ser uma missa rezada, na segunda-feira da Semana da Paixão, com paramentos roxos e oferecida em sufrágio pela alma de seu pai. O recém-ordenado enviou convites a muito poucas pessoas, porque estava de luto. Celebrariam a festa na intimidade. Umas estampas de Nossa Senhora traziam impresso por trás o texto do convite:

«O Presbítero

José María Escrivá y Albás

celebrará a sua Primeira Missa na Santa e Angélica Capela do Pilar de Saragoça, no dia 30 de março de 1925, às dez e meia da manhã, em sufrágio pela alma de seu pai, José Escrivá Corzán, que adormeceu no Senhor no dia 27 de novembro de 1924.

A.M.D.G.

Convite e recordatório»

Não lhe tinha sido fácil conseguir que lhe cedessem a Santa Capela; mas era seu vivo desejo celebrar lá, no lugar que visitava diariamente e onde clamava o seu Domina, ut sit! Aliás, a missa foi mais dolorosa do que o celebrante podia prever, embora escondesse a memória e as circunstâncias do ato numa frase muito simples: Na Santa capela, diante de um punhado de pessoas, celebrei sem ruído a minha Primeira Missa.

O seu irmão Santiago, que contava seis anos de idade, lembra-se da simplicidade da cerimônia e da reduzida assistência: «Foi Missa rezada, a que assistimos a minha mãe, a minha irmã Carmen, eu e poucas pessoas mais». A sua prima, Sixta Cermeño, faz um relato mais explícito:

Verso do recordatório.

«Meu marido e eu fomos os únicos da família Albás que, acompanhando a sua mãe, assistimos àquela Primeira Missa [...].

Estávamos a mãe de Josemaria – a tia Lola –, a sua irmã, o menino – que teria então seis anos –, nós – meu marido e eu –, duas conterrâneas de Barbastro que se chamam Cortés e eram amigas íntimas da sua irmã Carmen – deviam ter a mesma idade que ela – e alguém mais que eu não conhecia: julgo lembrar-me de dois ou três sacerdotes e é possível que estivessem também alguns amigos da Universidade ou do Seminário. É difícil dizê-lo, porque é sabido que aquela Capela do Pilar está sempre cheia de gente».

Com a ausência dos sacerdotes da família de Da. Dolores e o pequeno número dos ali presentes, a impressão que se tinha era de solidão. «Os seus tios Carlos, Vicente e Mariano Albás – conta Amparo Castillón – não estiveram na sua Primeira Missa, em 1925, a que eu assisti, e reparei que estava muito só».

O Reitor, o Pe. José López Sierra, acrescenta que dois sacerdotes amigos da família foram padrinhos de altar, e, pateticamente, descreve a cena da Santa Capela: a mãe estava «convertida num mar de lágrimas, de tal maneira que às vezes parecia desmaiar», enquanto nós, de joelhos, «sem pestanejar sequer, imóveis durante toda a missa, contemplávamos os gestos sagrados daquele anjo na terra».

A emoção de Da. Dolores, que nessa manhã se tinha levantado adoentada, avivava-se ao considerar os muitos sacrifícios por que ela e o marido tinham passado para poderem ver a cerimônia a que assistia. O mesmo pensamento deve ter ocorrido à sua sobrinha, Sixta Cermeño, ali presente, quando diz recordar que «a par da intimidade do momento, havia uma nota de tristeza» e que a mãe chorava, «possivelmente porque se lembrava da recente perda do marido».

O novo presbítero tinha o anelo filial de que a sua mãe fosse a primeira pessoa a receber das suas mãos uma das hóstias por ele consagradas. Viu-se privado dessa alegria. Uma senhora antecipou-se a Da. Dolores e ajoelhou-se no genuflexório da comunhão, o que obrigou o sacerdote a dar de comungar primeiro àquela boa mulher, para evitar uma deselegância. Acabada a missa, houve um beija-mãos, os parabéns do costume na sacristia e a despedida do pequeno grupo de assistentes. Dessa Primeira Missa, Josemaria guardou um sabor de sacrifício. Recordava-a como uma estampa de dor, com a sua mãe vestida de luto.

Ao celebrar a Santa Missa, o sacerdote exerce sobre o altar o seu ministério litúrgico do modo mais excelso. Ali se imola a mesma Vítima que se ofereceu na Cruz para redimir toda a humanidade. Josemaria, identificado pessoal e definitivamente com Cristo em virtude do sacramento da Ordem, fez do Sacrifício Eucarístico o centro da sua vida interior. E, assim como na véspera da sua Primeira Comunhão tinha recebido como lembrança a dolorosa carícia de uma queimadura provocada por um descuido do barbeiro, assim também agora lhe ficou impresso na memória o sacrifício de um piedoso anelo: dar a comunhão à sua mãe, antes do que a qualquer outra pessoa, na sua Primeira Missa. O Senhor, claramente, atraía-o cada vez mais para a Cruz com essas pequenas mostras de predileção.

No andar da Rua Rufas, encontravam-se, convidados para almoçar, os sobrinhos de Da. Dolores, as duas amigas de Carmen vindas de Barbastro e alguma outra pessoa de confiança. A modesta refeição combinava a pobreza com o bom gosto. A dona de casa tinha preparado um excelente prato de arroz.

Quando acabaram de almoçar, o sacerdote retirou-se para o seu quarto. Acabavam de lhe comunicar a sua primeira nomeação na carreira eclesiástica. Repassou os acontecimentos dos últimos meses e as pancadas recebidas no próprio dia. Tinha razão para pensar que Deus continuava com o conhecido martelar: uma no cravo e cem na ferradura. Desconsolado e soluçando, protestava filialmente com o Senhor: Como me tratas, como me tratas!