A grande "vingança" do Japão

Apesar da catástrofe que ocorreu em agosto de 1945, o Japão pôde ir para a frente graças às virtudes humanas dos seus cidadãos. Este trecho do livro "As cerejeiras em flor" narra as recordações familiares de uma supernumerária do Opus Dei.

Testemunhos
Opus Dei - A grande "vingança" do Japão O casal Saki, de Nagasaki, narram suas recordações familiares sobre a bomba atômica e como aprenderam a perdoar.

A mãe de Hisae Saki recordava aquele acontecimento com toda a riqueza de pormenores. Não tinha feito ainda doze anos e estava na escola durante um cálido dia de agosto. Às oito horas da manhã, ao terminar a primeira aula, a professora disse-lhes que durante o recreio todos limpariam o pátio para assim retirar as ervas secas e as daninhas. Esta prática é muito comum no Japão, assim as crianças aprendem a considerar a escola como própria e acostumam-se a ser ordenadas. Todos os alunos se encontravam em plena tarefa quando, às oito e quinze, ouviram o som de um avião. Levantaram o olhar para o ver e de um momento para o outro ficaram submersos num silêncio pavoroso, no meio de uma luz que cegava. As professoras não sabiam o que fazer, havia crianças atiradas metros de onde estavam antes; abriram as portas da escola e saíram todos correndo para as suas casas no meio de uma nuvem de pó.

A grande nuvem em forma de fungo após cair a bomba em Nagasaki. Agosto de 1945

A escola estava situada numa colina dos arredores, de onde se divisava uma grande panorâmica da cidade, com os edifícios distribuídos pelas seis ilhas que formavam os sete braços do estuário. O dia escureceu de forma estranha. Quando a mãe de Hisae Saki chegou a casa, que estava meio destruída, encontrou os pais em choque e quase sem sentidos, deitados no chão com algumas queimaduras e feridas leves; quando a viram chegar, levantaram-se e abraçaram-se todos juntos, chorando e dando graças por ainda estarem vivos. Pegaram algumas coisas e foram para casa de uns familiares, abrindo caminho por entre edifícios caídos e gritos de ajuda.

Por sorte, a casa dos seus familiares continuava de pé; mas ao entrar encontraram completamente queimada e debatendo-se entre a vida e a morte. Nessa mesma noite faleceu.

Graças à formação que receberam no Opus Dei, descobriram também que ser cristão não consiste apenas em cumprir preceitos, mas em amar a Deus e servi-l’O de todo o coração no meio da vida familiar e social e no trabalho habitual.

Dois dias depois, quando chegou a notícia do bombardeamento de Nagasaki, ficaram num estado de grande consternação e abatimento. Estavam tão perplexos que pensavam que tudo aquilo era um pesadelo e que acabaria de um momento para o outro. No dia 15 de agosto, quando escutaram a voz do imperador Tenno anunciando o fim da guerra, sentiram um grande consolo: “O inimigo começou a utilizar uma bomba nova, sobremaneira cruel, cuja capacidade para provocar sofrimento é realmente incalculável e provocou a morte de muitas vidas inocentes… Se continuássemos a lutar, o resultado não seria só o colapso e a destruição da nação japonesa, mas conduziria à completa extinção da civilização humana.”

Foto de Hiroshima um ano depois da queda da bomba, tirada pelos pilotos do Enola Gay.

A mãe de Saki não pôde esquecer isso, e sempre educou os filhos para não guardarem rancor a ninguém. Falou-lhes sempre de esquecimento e perdão. Esses ensinamentos prevaleceram durante toda a sua vida, desde a juventude até ao seu casamento.

A conversão de Hisae

Hisae conheceu o marido em Kioto, quando ele estudava idiomas e ela tinha aulas de piano. Apresentou-os um amigo comum, que era da Obra. Enquanto se iam conhecendo, foram crescendo juntos na fé.

Nessa época, os dois estudavam o catecismo, que consideravam, pela maneira como tinham sido educados, uma série de normas e regras para conhecer e respeitar. No entanto, graças à formação que receberam no Opus Dei, descobriram também que ser cristão não consiste apenas em cumprir preceitos, mas em amar a Deus e servi-l’O de todo o coração no meio da vida familiar e social e no trabalho habitual.

Ambos se batizaram e depois, cada um por seu lado, responderam à chamada de Deus. Ele foi admitido na Obra e ela também; isso uniu-os ainda mais porque já mesmo antes de serem católicos tinham decidido formar um lar “luminoso e alegre”.

Foram a Roma na lua-de-mel, onde os recebeu o então prelado Dom Álvaro del Portillo, que lhes disse que tinham que ser exemplares, pensando em tantas pessoas no Japão que o Senhor chamaria num futuro para se entregarem plenamente a Ele dentro do casamento. Aconselhou-os a que nunca discutissem diante dos filhos e ofereceu um terço a cada um, depois de beijá-lo com muito carinho.

A visita de Dom Álvaro à terra do sol nascente

Dom Álvaro del Portillo visitou a cidade de Nagasaki no dia 14 de fevereiro de 1987. Hisae e a família foram esperá-lo ao aeroporto: ela ofereceu-lhe um ramo de cerejeira em flor e a filha um ramo de flores. Embora fosse inverno e costume haver neve, nessa época a temperatura subiu, havendo assim uns dias de primavera.

Dom Álvaro esteve rezando diante da imagem da Virgem em que se deram a conhecer os cristãos clandestinos e visitou o monumento dos mártires. Recordou que o mexicano Felipe de Jesús era seu familiar afastado. Depois se organizou um encontro com Dom Álvaro na escola de Nagasaki, ao qual assistiram centenas de pessoas. Na sua maioria eram budistas ou ateias, mas todas ficaram surpreendidas ao ver como transmitia os seus ensinamentos, porque sabia criar um ambiente caloroso e grato à sua volta. “Tinha a sensação — dizia uma senhora não cristã ao terminar a tertúlia — de que estava na sala de estar da minha casa com um amigo da família”.

Ao começar a tertúlia contou quanto o fundador do Opus Dei teria gostado de conhecer o Japão:

“Rezava para que não desesperassem, para que tivessem um encontro com Deus no meio do sofrimento. Recordava também os que ficariam vivos, mas com sequelas que ainda ignoravam”.

- "Recordo as suas ânsias de fazer o bem nesta terra, onde vivem tantas pessoas cheias de virtudes humanas, capazes de trabalhar com esforço e intensidade extraordinários. Considerava que, se todos conhecessem Cristo, se todos se encontrassem com Cristo, se todos amassem a Cristo, que grande bem se causaria à humanidade! Porque todas essas virtudes humanas que aqui há, toda essa laboriosidade própria das pessoas do Japão, postas ao serviço de Deus, seriam algo extraordinário".

Depois disse algo surpreendente: evocou a dor do fundador quando teve a notícia da destruição de Hiroshima e Nagasaki. “Rezava para que não desesperassem, para que tivessem um encontro com Deus no meio do sofrimento. Recordava também os que ficariam vivos, mas com sequelas que ainda ignoravam”.

“Eu olhava de soslaio, de vez em quando, para os rostos dos que me rodeavam, especialmente dos não cristãos. Embora os japoneses não costumem exteriorizar os seus sentimentos, via-se que muitos estavam emocionados”, disse Saki.

Durante aquela visita esteve em várias cidades, e falou de Deus a todo o tipo de pessoas. “Impressionou-me especialmente — e pensei que teria agradado à minha mãe ter ouvido — o que disse em Kioto: “Quando frequentei o liceu — disse o Bem Aventurado Álvaro — dizia-se que a população japonesa era de cem milhões de habitantes. Agora sois cento e vinte milhões de pessoas, mas muito poucos conhecem Cristo. Se as virtudes humanas que vocês têm aqui — laboriosidade, ordem e tantas outras — estivessem postas ao serviço de Deus, que impacto tão fantástico causaríeis em todo o mundo! Seria muito maior do que o da bomba atômica. Esta poderia ser a grande vingança do Japão”.

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Adaptado do texto publicado no livro “Los cerezos en flor”, de José Miguel Cejas; ed. Rialp, 2015.