Uma aldeia chamada Emaús

A ressurreição de Cristo é um fato que os evangelhos afirmam de modo claro, com a narração de diversos encontros com Jesus. São Lucas descreve com detalhes comovedores o encontro de Jesus com os discípulos de Emaús

Conhecer a Terra Santa
Opus Dei - Uma aldeia chamada Emaús A ceia de Emaús, de Matthias Stom, Museu Thyssen-Bornemisza.

A ressurreição de Cristo, que ocorreu nas primeiras horas do domingo, é um fato que os evangelhos afirmam de modo claro e inequívoco. Além das primeiras testemunhas do sepulcro vazio – as santas mulheres, os apóstolos Pedro e João – narram diversas aparições de Jesus ressuscitado. Entre elas, a dos discípulos de Emaús, descrita com detalhes comovedores por São Lucas, provocava um especial impacto em São Josemaria.

Conhecemos bem o início do relato: “naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos iam para um povoado, chamado Emaús, a uns dez quilômetros de Jerusalém. Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. Os seus olhos, porém, estavam como vendados, incapazes de reconhecê-lo (Lc 24, 13-16).

Pelos pormenores que São Lucas transmite, poderia parecer simples localizar a aldeia aonde se dirigiam Cléofas e o outro discípulo. Contudo, ao contrário do que ocorre com muitos lugares da Terra Santa, o passar dos séculos e os acontecimentos da história não foram indiferentes, de forma que hoje em dia há vários lugares que poderiam ser identificados com a povoação de Emaús dos Evangelhos. Alguns merecem maior credibilidade, não só porque gozam do consenso dos estudiosos, mas também por serem atualmente lugares de peregrinação.

“Emaús”: a oeste de Jerusalém

O primeiro coincide com uma cidade a oeste de Jerusalém que aparece com o nome de Emaús no Antigo Testamento: no ano 165 antes de Cristo, o exército selêucida de Nicanor e Górgias, acampado nas proximidades, foi derottado de forma impressionante pela rebelião judia liderada por Judas Macabeu (cf. 1 Mac 3, 38-4, 25). Também ali, na mesma época, se construiu uma fortaleza (cf. 1 Mac 9, 50), da qual ainda existem vestígios. A sua situação estratégica – no caminho entre a cidade portuária de Jafa e Jerusalém – fez com que os romanos a convertessem num importante núcleo administrativo em meados do século primeiro antes de Cristo. Contudo, como represália por um ataque a uma das suas legiões, foi incendiada e arrasada no século I a. C. A cidade terá sido reconstruída pelos anos 66-67 da nossa era, já que os historiadores Flávio Josefo e Plínio a enumeram entre as capitais de distrito, e Vespasiano conquistou-a na sua campanha para submeter a revolta dos judeus. Passou então a chamar-se Nicópolis, “cidade da vitória”, nome pelo qual ficou conhecida quando recebeu o título de cidade romana, no ano 223.

Os testemunhos mais antigos que identificam Emaús-Nicópolis com o lugar evangélico remontam ao século III: Eusébio de Cesareia, no Onomasticon, lista de lugares bíblicos elaborado ao redor do ano 295, afirma que “Emaús, de onde era Cléofas, que é mencionada no Evangelho de Lucas, é hoje em dia Nicópolis, importante cidade da Palestina”; e São Jerônimo, além de confirmar esta tese ao traduzir o livro de Eusébio ao latim, transmite-nos que peregrinou no ano de 386 a “Nicópolis, que se chamava antes Emaús, na qual o Senhor, reconhecido na fração do pão, consagrou em igreja a casa de Cléofas” (São Jerônimo, Epistola CVIII. Epitaphium Sanctae Paulae, 8).

Durante a época bizantina, entre os séculos IV e VII, Emaús-Nicópolis contaria com uma população cristã representativa, pois foi sede episcopal. No ano 628, os árabes invadiram a Palestina e conquistaram a cidade, que passou a chamar-se Ammwas. Embora existam notícias de que os habitantes foram evacuados dois anos depois por causa de uma praga, manteve a sua importância como cabeça de distrito durante a dominação islâmica. Em Junho de 1099, foi o último bastião tomado pelos cruzados no seu caminho para Jerusalém; e no século XII, durante os reinados cristãos, construiu-se uma igreja sobre as ruínas de uma basílica da época bizantina.

Até a essa época, a tradição que situava em Nicópolis a manifestação de Jesus ressuscitado tinha-se mantido apesar de contrastar com um dado fornecido por São Lucas: que Emaús estava a sessenta estádios de Jerusalém, quando a distância de Nicópolis é de cento e sessenta, quer dizer, há uma diferença de vinte quilômetros. Ainda que alguns estudiosos tenham avançado diversas hipóteses para explicar isto, o fato é que a identificação de Nicópolis com Emaús perdeu força, a sua igreja ficou abandonada ao partirem os cruzados e a presença cristã desapareceu da cidade até finais do século XIX. Por iniciativa da beata Mariam de Belém, religiosa carmelita, em 1878, foi comprado o terreno onde estavam as ruínas da igreja e recomeçaram as peregrinações. As escavações arqueológicas realizadas em 1880, em 1924 e as que atualmente se realizam puseram a descoberto vestígios das duas basílicas bizantinas e de uma igreja medieval – dos cruzados – construída com pedras tiradas das ruínas das duas primeiras.

Basílica na antiga Nicópolis (Esquerda) e detalhe de um mosaico bizantino.

Outro Emaús: a norte de Jerusalém

Outro lugar que poderia corresponder à Emaús dos Evangelhos é a pequena povoação de El Qubeibeh, construída sobre uma fortificação romana antiga chamada Castellum Emmaus, que se encontra à distância exata de sessenta estádios de Jerusalém. Em 1355, os franciscanos que chegaram ali descobriram algumas tradições locais que permitiam identificá-la com a pátria de Cléofas. As primeiras escavações, realizadas em finais do século XVIII, trouxeram à luz restos de uma basílica do tempo dos cruzados que tinha incorporado outro edifício precedente, e também revelaram vestígios de uma aldeia medieval. Em 1902, construiu-se uma igreja de estilo neorromânico integrando as ruínas da anterior, que é a que persiste até hoje.

“Nos nossos caminhos Jesus ressuscitado faz-se companheiro de viagem para reavivar em nosso coração o calor da fé”.

Na Páscoa de 2008, Bento XVI referiu-se ao fato de que não tenha sido identificada, com absoluta certeza, a Emaús que aparece no Evangelho: “existem várias hipóteses, e isto é sugestivo, porque nos deixa pensar que Emaús representa na realidade todos os lugares: o caminho que nos conduz é o caminho de todos os cristãos, aliás, de todos os homens. Nos nossos caminhos Jesus ressuscitado faz-se companheiro de viagem, para reavivar nos nossos corações o calor da fé e da esperança e o partir o pão da vida eterna.” (Bento XVI, Ângelus, 6-IV-2008).

“Caminhavam aqueles dois discípulos em direção a Emaús. Andavam a passo normal, como tantos outros que transitavam por aquelas paragens. E ali, com naturalidade, aparece-lhes Jesus, e caminha com eles, numa conversa que diminui a fadiga. Imagino a cena, bem ao cair da tarde. Sopra uma brisa suave. Em redor, campos semeados de trigo já crescido, e as oliveiras velhas, com os ramos prateados à luz tíbia” (Amigos de Deus n. 313).

A presença do Senhor inspirava uma grande confiança, pois com apenas duas frases provocou a confidência dos discípulos: “compreende a sua dor, penetra em seus corações, comunica-lhes um pouco da vida que nEle habita” (É Cristo que passa, n. 105). As suas esperanças de que Jesus redimiria Israel tinham terminado com a crucifixão. Ao sair de Jerusalém, sabiam já que o seu corpo não se encontrava no sepulcro, e que as mulheres afirmavam ter recebido o anúncio da sua ressurreição através de uns anjos; mas não acreditaram (Cf. Lc 24, 17-24), estão tristes e titubeantes na fé. “Então ele lhes disse: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso para entrar na sua glória?” E, começando por Moisés e passando por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, as passagens que se referiam a ele” (Lc 24, 25-27).

Como seria aquela conversa! Mas “Termina o trajeto ao chegarem à aldeia, e aqueles dois que – sem perceber – foram feridos no fundo do coração pela palavra e pelo amor do Deus feito homem, sentem que Ele se vá embora. Porque Jesus se despede com gesto de quem vai prosseguir. (Amigos de Deus, n. 314). Contudo, “os dois discípulos detêm-no, e quase o forçam a ficar com eles” (É Cristo que passa, n. 105). Pedem-lhe: “mane nobiscum, quoniam advesperascit, et inclinata est iam dies”; Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando! (Lc 24, 29). Jesus fica, “Depois que se sentou à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu a eles. Neste momento, seus olhos se abriram, e eles o reconheceram. Ele, porém, desapareceu da vista deles. Então um disse ao outro: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 30-32).

Emaús é o mundo inteiro, porque o Senhor abriu os caminhos divinos da terra.

Comentando esta passagem, São Josemaria aplicava-a também ao apostolado daqueles cristãos que, no meio do mundo, são chamados a tornar Jesus presente em todos os lugares onde os homens desenvolvem as sua tarefas (cf. É Cristo que passa, n. 105).

Nonne cor nostrum ardens erat in nobis dum loqueretur in via? - Não ardia o nosso coração dentro de nós, enquanto nos falava pelo caminho? Se és apóstolo, estas palavras dos discípulos de Emaús deviam sair espontaneamente dos lábios dos teus companheiros de profissão, depois de te encontrarem no caminho da sua vida.” (Caminho, n. 917).

O Senhor quis aparecer a Cléofas e ao seu companheiro de um modo normal, como mais um viajante, sem se fazer reconhecer imediatamente. Como nos trinta anos de vida oculta de Jesus.

A reação dos discípulos de Emaús, que se levantaram logo e voltaram a Jerusalém (cfr. Lc 24, 33), também é uma lição para todos os homens: “Abrem-se os nossos olhos como os de Cléofas e seu companheiro, quando Cristo parte o pão; e embora Ele volte a desaparecer da nossa vista, seremos também capazes de retomar a caminhada – anoitece – para falar dEle aos outros, pois não cabe num peito só tanta alegria.

Caminho de Emaús. O nosso Deus impregnou de doçura este nome. E Emaús é o mundo inteiro, porque o Senhor abriu os caminhos divinos da terra.” (Amigos de Deus, n. 314).