Um caminho através do mundo: um leitor de Josemaria Escrivá

“Um caminho através do mundo” é o título de uma antologia de textos – em italiano – de São Josemaria publicada pela editorial Lindau. A obra, que inclui excertos dos seus livros, homilias, entrevistas, cartas e apontamentos pessoais, foi elaborada por John Wauck.

Bibliografia e ensaios

“Um caminho através do mundo” é o título de uma antologia de textos – em italiano – de São Josemaria publicada pela editorial Lindau. A obra, que inclui excertos dos seus livros, homilias, entrevistas, cartas e apontamentos pessoais, foi elaborada por John Wauck.

Na introdução do livro o autor fala da personalidade de São Josemaria Escrivá e do contexto cultural em que nasceu o Opus Dei.

É mais difícil encontrar um caminho através do mundo do que percorrer esse mesmo caminho. Wallace Stevens, em “Respondendo a Papini”.

Introdução geral

Em 1925, na sua obra “O Homem eterno”, o escritor G.K. Chesterton chamou a atenção para o que ele designava os “enigmas” do Evangelho, e, falando sobre os trinta misteriosos anos de Jesus Cristo, chamados “anos da vida oculta” em Nazaré, fez esta observação:

De todos os seus silêncios, este é o que mais impressiona pela sua imensidade e imaginação. Mas não é aquilo que qualquer pessoa está inclinada a inventar para explicar alguma coisa; e ninguém que eu conheça procurou provar alguma coisa com ele. É impressionante, mas só é impressionante como um facto: não há nada nele particularmente chamativo ou óbvio como uma fábula. (Chesterton, O homem eterno) (1)

O criador das histórias do Padre Brown, naqueles anos, pouco sabia de um jovem sacerdote espanhol, de Barbastro, que em Huesca, iria descobrir o profundo significado desses anos escondidos, encontrando neles o modelo para um novo caminho para a santidade na Igreja Católica. Precisamente três anos depois, em 1928, o sacerdote de 26 anos Josemaria Escrivá, viu claramente a tarefa a que iria dedicar a sua vida: a procura da santidade no trabalho através da vida normal de cada um, seguindo o exemplo dos anos de carpinteiro de Jesus Cristo, em Nazaré. Esses mesmos anos, que Chesterton viu como tão obscuros, para o padre Josemaria Escrivá, estavam cheios de lições luminosas:

«Toda a vida do Senhor me apaixona. Tenho, porém, uma particular predileção pelos seus trinta anos de existência oculta em Belém, no Egito e em Nazaré. Esse longo tempo, de que mal se fala no Evangelho, surge desprovido de significado próprio aos olhos de quem o considera com superficialidade. E, no entanto, sempre sustentei (...) foram anos intensos de trabalho e de oração, em que Jesus teve uma vida tão normal “como a nossa, se queremos”, simultaneamente divina e humana; naquela singela e ignorada oficina de artesão e, mais tarde, diante das multidões, cumpriu tudo com perfeição». (Amigos de Deus, 56)

Esta nova forma de procurar a santidade receberia o nome de Opus Dei (Obra de Deus em latim) e espalhar-se-ia por todo o mundo. Em 2002, o jovem sacerdote – cujos escritos foram reunidos nesta antologia de textos – entraria no Calendário litúrgico da Igreja como São Josemaria Escrivá.

Nascido em Barbastro, na província de Huesca a 9 de Janeiro de 1902, cresceu aí e mais tarde em Logronho onde a família se instalou em 1915, depois de a empresa do pai ter ido à falência. Inspirado pelas pegadas impressas na neve por um carmelita descalço, o jovem Josemaria deu-se conta de que Deus queria algo dele e, para se preparar, entrou no seminário local, estudando aí e mais tarde em Saragoça onde também estudou Direito Civil. (Posteriormente doutorou-se em Direito Civil e Canônico).

Quando o seu pai faleceu em 1924, Escrivá, que ainda não tinha recebido o diaconado, tornou-se o chefe da família, responsável pela mãe, pela irmã mais velha e pelo irmão ainda pequeno; outras três irmãs tinham morrido já, ainda crianças. Em Março de 1925 foi ordenado sacerdote e, depois de trabalhar dois anos na Diocese de Saragoça, mudou-se com a família para Madrid para continuar os estudos de Direito.

Entretanto em Madrid foi capelão de uma instituição de caridade, trabalhava intensamente em hospitais e bairros pobres, ensinando Catecismo, confessando e atendendo moribundos. Ao mesmo tempo, pedia ao Senhor que lhe fizesse ver a sua vontade: durante aqueles anos, a sua oração constante era a mesma de Bartimeu, o cego do Evangelho – Domine, ut videam!, Senhor que eu veja! Um ano depois de ter chegado a Madrid, a 2 de Outubro de 1928, enquanto fazia um retiro, viu finalmente qual o empreendimento espiritual que Deus lhe pedia. A partir daí a biografia de Josemaria Escrivá torna-se inseparável da história do Opus Dei.

De alguma maneira, quando Escrivá fala de encontrar Deus nas coisas e acontecimentos do mundo, o leitor podia interrogar-se que “mundo” tinha na sua mente? Qual o mundo que conhecia?

O Opus Dei veio ao mundo entre duas grandes guerras, em meio de acontecimentos pouco claros e mudanças dramáticas nos finais da década de 20. Eram momentos de transições e torvelinhos, de tradições abandonadas e redescobertas. Em 1928, o ano em que São Josemaria fundou o Opus Dei, os seus contemporâneos e compatriotas Salvador Dali e Luis Buñuel estavam a rodar o clássico e surrealista filme “El perro andaluz”. Nesse mesmo ano uma escritora católica conversa, a romancista norueguesa Sigrid Undset, autora de “Kristin Lavransdatter” ganha o Nobel da Literatura. Outro católico recém-convertido terminava o “Adeus às armas”. Evelyn Waugh, a caminho da conversão ao catolicismo, publicava o romance “Declínio e queda”.

Durante as Olimpíadas desse mesmo Verão em Amesterdão, o mundo pôde admirar o nadador Johnny Weissmuller – o famoso Tarzan de anos mais tarde – que ganhou duas medalhas de ouro. Um ano depois da fundação do Opus Dei, Maurice Ravel foi premiado em Paris pelo seu famoso Bolero e, do outro lado do Oceano, o “Rato Mickey” de Walt Disney fazia a sua primeira aparição num filme. No ano anterior, Charles Lindbergh tinha feito sozinho a primeira travessia aérea do Oceano Atlântico. O realizador de cinema australiano Fritz Lang criou a sua obra-prima “Metrópole” e o filme de Al Jolson “Jazz singer” anunciou o fim da era do cinema mudo com as famosas palavras: “Até agora ainda não ouviram nada”.

Um ano depois, em 1929, o crash da Bolsa deu lugar à “Grande Depressão” e, em Itália a assinatura dos Tratados lateranenses fizeram com que terminassem para o Papa, as longas décadas como “prisioneiro do Vaticano”. Na península Ibérica as tensões políticas levam a Espanha a uma sangrenta guerra civil que ia atingir em cheio São Josemaria.

Podemos dizer que este era “o mundo” que São Josemaria conheceu. Longe de se sentir alheado desses acontecimentos contemporâneos, estava profundamente imerso neles. Os seus diários desde 1930 revelam que era um ávido leitor de jornais diários. Mais importante ainda, viu que era precisamente esse mundo que devia albergar o espaço para a contemplação e para o encontro pessoal com Deus. Neste Volume, (no capítulo “Filhos de Deus”), o leitor poderá descobrir o próprio relato de São Josemaria sobre a oração mais elevada que experimentou.

Sucedeu a 16 de Outubro de 1931, não muito depois de fundar o Opus Dei, nos primeiros anos da segunda República em Espanha, e é curioso que essa intensa oração teve lugar, não numa Igreja ou no cimo de uma montanha, mas sim num eléctrico enquanto São Josemaria ia a ler um jornal. Jamais esqueceu esse momento.

O que mais chama a atenção, contudo, nos primeiros anos do Opus Dei é a fé do jovem fundador. Para trazer ao mundo uma nova instituição neste período de intensas convulsões políticas, com uma enorme audácia e no meio de uma grande insegurança em âmbitos muito diversos (sociais, econômicos, culturais) teve de enfrentar sérios obstáculos.

O sacerdote, que tinha de sustentar a própria família, não dispunha de recursos econômicos. Como costumava dizer com frequência, quando começou o Opus Dei contava apenas com “26 anos, a graça de Deus, e bom humor”. De princípio muitos não entendiam. A novidade da mensagem fez com que alguns lhe chamassem herege e louco.

As vocações chegavam lentamente e alguns dos primeiros membros deixaram o Opus Dei ou faleceram prematuramente. Logo a seguir, em 1936, começou a guerra civil. Como consequência, o punhado dos primeiros dispersou-se por toda a Espanha. A perseguição religiosa na zona republicana, que tirou a vida a milhares de sacerdotes, e a uma dezena de bispos, forçou Escrivá a esconder-se no começo da guerra e mais tarde, em 1937, fugiu através dos Pirineus para a França, para depois se estabelecer em Burgos.

Quando em 1939 terminou a guerra civil, o único Centro do Opus Dei tinha sido bombardeado e estava destruído, e o fundador com 37 anos retomou o trabalho interrompido pela guerra, começando praticamente do zero. Ainda assim nos seus escritos dessa época não mostra sinais de desânimo, antes pelo contrário, uma inamovível convicção de que a Obra era de Deus e não sua. O Opus Dei estava destinado a crescer e a expandir-se pelo mundo inteiro. Um fruto emergiu dos anos da guerra: o seu famoso livro Caminho, coleção de 999 pontos de reflexão e de oração, publicado em 1939 e do qual se venderam cerca de um milhão de exemplares.

Logo que acabou a Segunda Guerra Mundial. São Josemaria mudou-se para Roma, e a Cidade Eterna converteu-se no seu lar até ao fim da vida. A mesma fé, de que necessitara em Espanha, teve-a durante os anos romanos. Antes de ser aprovada pela Santa Sé, e ter encontrado o seu lugar adequando na estrutura da Igreja, a nova instituição teve de superar as maiores dificuldades canônicas e jurídicas. Com o fim de dirigir o Opus Dei no seu caminho jurídico e de apostolado por todo o mundo (eram os anos de expansão pela Europa e pelas Américas), Escrivá, que quase não se via por Roma, apoiou-se menos nos seus próprios talentos e mais na efetividade da oração silenciosa, do trabalho sereno e no próprio sacrifício. Quando chegou em 1946 passou a primeira noite no apartamento da Praça de Città Leonina, contemplando da sua janela a Cidade do Vaticano, e rezando pela pessoa e intenções do então Papa Pio XII.

A reacção inicial em Roma face a esta nova realidade do Opus Dei não foi muito animadora. Aos primeiros membros que falaram com pessoas influentes da Santa Sé foi-lhes dito que haviam chegado com um século de antecipação. O Opus Dei não encaixava nas estruturas do momento. A Igreja não estava preparada para uma nova vocação para a santidade para os leigos no meio do bulício do dia-a-dia no mundo.

Contudo, o futuro chegou muito antes do sonhado, não foi preciso esperar um século para que o Opus Dei fosse erigido como a primeira “Prelatura pessoal” em 1982 pelo Venerável João Paulo II. Um novo modelo de jurisdição pastoral de sacerdotes e leigos com um Prelado à frente, sem território. Também, antes que passasse um século, o fundador já era santo. Outra nova ironia da história.

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Com o fim de tornar mais clara a mensagem do Opus Dei, em palavras do seu fundador, “tão velha como o evangelho e como o evangelho nova”, esta antologia apresenta-a como a redescoberta de um caminho antigo, já conhecido mas também se refere a alguns dos aspectos específicos deste caminho, característicos da modernidade: o valor do trabalho humano; a procura de sentido num mundo secularizado; a visão do homem normal e da sua existência quotidiana.

De certa maneira, representa como que a “popularização” da santidade, não a tornando mais fácil, não a “nivelando por baixo”, mas pondo-a como exemplo acessível a qualquer cristão baptizado. A mensagem de São Josemaria antecipa-se às palavras de João Paulo II sobre a santidade cristã no começo do Terceiro Milênio:

“Este ideal de perfeição não deve ser mal entendido, como se significasse uma espécie se existência extraordinária só possível para uns quantos “heróis pouco comuns” na santidade. São muitos os caminhos de santidade segundo a vocação pessoal de cada um. “Dou graças a Deus porque este ano me permitiu beatificar e canonizar um grande número de cristãos e, entre eles, muitos leigos que chegaram à santidade nas circunstâncias mais normais. Chegou o momento de voltar a propor de todo o coração e a todo o mundo, este alto nível de santidade da vida cristã normal: a vida inteira da comunidade cristã e das famílias cristãs, deve caminhar nesta direção”. (Novo Millennio Ineunte, 31)

O Opus Dei poderia assim ser visto como uma revolução democrática no âmbito da santidade. De facto, há um Cardeal em Roma que gosta de definir o Opus Dei como uma “Revolução Francesa” de carácter eclesial: baseia-se na ideia de que a santidade não é um privilégio para uma aristocracia ou para uma oligarquia, mas sim uma oportunidade e um dever para cada cristão.

Na sua obra “A Origem do Eu: Construindo a identidade moderna”, o filósofo canadiano Charles Taylor inclui um fascinante capítulo com o título: “A afirmação da vida normal”. A afirmação a que se refere é uma característica reação moderna de sentido crescente de alienação do quotidiano. A sociedade secular moderna, – comercial, industrial, capitalista, técnica, – tem sido desmitificada, esvaziada de todo o significado sobrenatural. O mundo já não se revê na afetuosa e transcendental mão de Deus. Como diz Taylor: “Em contraste com a plenitude da epifania está o sentido do mundo que nos rodeia, como nós o experimentamos, mergulhado em profunda desunião, morte e abandono” (Charles Taylor. “A Origem do Eu”, p. 422) (3)

E, quando a vida quotidiana parece estar vazia de todo o sentido específico, é esse– quer se queira ou não – o lugar onde a maior parte das pessoas encontrará o sentido para a sua vida. Como consequência, no mundo de hoje há um amplo sentimento de que o valor da vida normal e corrente tem de ser, de algum modo restabelecido.

Segundo o romancista americano Walter Percy, “todas as estratégias dos nossos dias para nos distraírem do quotidiano, através de viagens, do sexo, diversões, drogas, novos gnosticismos, arte, últimas novidades tecnológicas, etc., estão, de qualquer modo, destinadas ao fracasso. O que é normal não tem saída: estamos feitos para isso. A solução – diz o autor de “El Cinéfilo” – mente bastante ao tomar partido pelo normal. Requer o que Nietzsche teria chamado “transmutação de valores”. Percy diz que “se decide por um desvelado cultivo da normalidade”. De facto, o Opus Dei poderia considerar-se precisamente como isso mesmo: um novo modo de ver os valores cristãos, a “cultura do normal”, não como algo de que se foge, mas algo para acolher. Como diz São Josemaria em “Amar o mundo apaixonadamente”, “Não há outro caminho, meus filhos: ou sabemos encontrar Nosso Senhor na nossa vida corrente ou nunca O encontraremos” (4)

O mundo dividiu-se em dois na guerra entre o comunismo e o capitalismo e, nesse contexto, a questão do valor do trabalho do homem passa a ser uma questão fulcral. É neste contexto contemporâneo em que São Josemaria propõe um novo modo de encarar o trabalho, radicalmente oposto ao materialismo dogmático propalado por Marx e ao materialismo prático produzido pelas sociedades capitalistas. Em “Amar o mundo apaixonadamente” fala inclusivamente de um “materialismo cristão”.

“Eu costumava dizer àqueles universitários e àqueles operários que vinham ter comigo por volta de 1930 que tinham que saber materializar a vida espiritual. Queria afastá-los assim da tentação, tão frequente então como agora, de viver uma vida dupla: a vida interior, a vida de relação com Deus, por um lado; e por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social, cheia de pequenas realidades terrenas. É lícito, portanto, falar de um materialismo cristão, que se opõe audazmente aos materialismos fechados ao espírito.” (São Josemaria, Amar o mundo apaixonadamente)

Como poderá ver-se nos parágrafos reunidos neste volume, São Josemaria era um escritor de talento, conhecedor dos clássicos da literatura espanhola, com um temperamento apaixonado de artista. Quando jovem, antes de entrar para o seminário, sonhava em ser arquitecto, e durante toda a sua vida esteve metido a fundo – até nos detalhes mais ínfimos – em diversos projetos de construção. Durante a sua estadia em Burgos, durante a guerra civil, gostava de dar como exemplo os coruchéus da catedral da cidade burgalesa para ilustrar o espírito do Opus Dei: fazer o trabalho para ser visto por Deus.

Uma pessoa que tivesse visto as patas que esboçava com traços rápidos, a modo de caricatura, muitas das quais se conservam em Roma, pode facilmente detectar a espontaneidade artística da sua personalidade. Por isso, ninguém se surpreenderá ao ouvi-lo falar do desafio que se põe aos cristãos, em termos esteticamente de grande beleza. Na sua homilia “Amar o mundo apaixonadamente”, afirma que a vocação do cristão consiste em “fazer poesia heroica da prosa de cada dia”.

Entendo bem, de uma forma especificamente cristã, o que o poeta Wallace Stevens (1879-1955) quis dizer quando escreveu que “os grandes poemas do céu e do inferno já tinham sido escritos, mas que o grande poema da terra ainda está ainda por escrever”. Poder-se-ia dizer que, para São Josemaria, o cristão é chamado a fazer o que Wermeer fez na pintura: transformar a matéria do dia-a-dia – a rotina, o banal – numa obra-prima divina.

Embora a mensagem do Opus Dei fale com uma força peculiar à sensibilidade moderna, ao fim e ao cabo, com essa própria vida normal, antiga e moderna, ela não pertence a nenhum período ou cultura.

Com efeito, não é uma realidade nova e jamais se irá considerar obsoleta. Antes pelo contrário, é dirigida a qualquer situação humana: a homens que vivem num mundo real, com as suas obrigações, com as suas penas e alegrias. Os termos utilizados nesta mensagem – o mundo, o trabalho de todos os dias, a família, podem ser perfeitamente aplicáveis a Adão e a Eva… e a todos os seus descendentes. De facto, São Josemaria dirige a nossa atenção a algo que talvez não faça parte de uma imagem estandardizada da vida antes da queda no jardim do paraíso: Adão e Eva, de princípio, não tinham inclinação para uma vida de prazer; no Paraíso tinham também trabalho para fazer. Assim como os pássaros voam e os peixes nadam, o homem trabalha. São Josemaria não quis que esquecêssemos que o homem foi colocado por Deus no jardim para o cultivar, e, também, para trabalhar.

Este conceito de vida normal e de trabalho diário, segundo o plano original de Deus, foi confirmado na humanidade de Jesus Cristo que deixou como modelo a maior parte da sua vida em Nazaré. Trabalhando, transpirando, comprando, vendendo… elevou as realidades humanas a uma ordem superior. No filme “A Paixão de Cristo”, as fortes cenas da flagelação concitaram muitas críticas, mas há uma cena no filme que lembra a sensibilidade de São Josemaria (parece até ter sido criada para ilustrar as suas homilias): o flash-back em que se vê Jesus fazendo uma mesa e distraindo-se com Maria, sua mãe. Essa cena capta um gênero de vida que qualquer cristão poderia viver.

É a mesma vida que muitos dos primeiros cristãos costumavam viver, e que São Josemaria utilizava para explicar o Opus Dei. Podemos encontrar o significado da santidade que viviam na “Epístola a Diogneto”, anônima, do século II. “Os cristãos em nada se distinguem dos outros homens nem pela nacionalidade, nem pela língua nem pelos costumes. Não vivem em cidades próprias, nem falam dialectos estranhos nem têm um modo de vida diferente. Os seus ensinamentos não se baseiam em sonhos inspirados pela curiosidade humana. Mas diversamente dos outros, não se vangloriam com uma mera doutrina humana. Cuidam a forma como se vestem, a comida, e seu modo de vida em geral segue os costumes próprios dos sítios onde vivem, quer sejam gregos ou estrangeiros. E, no entanto, há algo fora do comum nas suas vidas.”

Nos dias de hoje esta mensagem continua a ser atual, apesar de, durante alguns séculos, se ter perdido, e até na década de 1930 não ser entendida. Assim o afirma a Igreja, no Catecismo da Igreja Católica: “Todo o cristão em qualquer estado ou modo de vida, é chamado à plenitude de vida cristã e também à perfeição da caridade”. “Todos são chamados à santidade “. “Sede perfeitos como o meu Pai celestial é perfeito”.

O fundador do Opus Dei não viu em vida este Catecismo, nem viu o Opus Dei erigido em “Prelatura pessoal” em 1982, mas sim que chegou a ver como esta mensagem foi acolhida pela Igreja no Concílio Vaticano II, especialmente no que diz respeito à vocação dos leigos no mundo.

“A vocação real do laicado procura o reino de Deus participando nas realidades temporais e ordenando-as segundo o plano de Deus. Vivem no mundo, quer dizer, em todas e em cada uma das profissões seculares. Vivem as circunstâncias familiares normais e a vida onde se entretece a sua própria existência.

São chamados por Deus para exercer as suas funções próprias e, orientados pelo espírito do Evangelho trabalham para santificar o mundo a partir de dentro como fermento. Deste modo fazem com que Cristo seja conhecido, sobretudo através do testemunho da sua vida cheia de fé, esperança e caridade”… Contudo, embora na Igreja nem todos sigam o mesmo caminho, todos são chamados à santidade e receberam o mesmo privilégio da sua fé pela justiça de Deus…. Pois todos os seus trabalhos, orações e tarefas apostólicas, o casamento e a vida normal, as ocupações diárias e o descanso físico e mental, se o fazem com esse espírito, e até a dureza da vida levada pacientemente, tudo isso se transforma num “sacrifício espiritual aceite por Deus através de Jesus Cristo” (Pedro 2, 5). Com o oferecimento do Corpo do Senhor, oferecem-se apropriadamente na celebração da Eucaristia. Tal como existem outras pessoas, em muitos diversos lugares, que adoram a Deus numa atividade santa, os leigos consagram a Deus o próprio mundo” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2013).

Ao ler estas palavras nos anos sessenta, São Josemaria viu confirmada a mensagem do Opus Dei como um dos pilares de uma nova cultura da santidade para a Igreja no mundo moderno.

Uma década depois, passados 50 anos dedicados a abrir este novo caminho de santidade, morria a 26 de Junho de 1975, de um ataque cardíaco. Depois da sua morte, cerca de uma terça parte dos bispos de todo o mundo escreveu à Santa Sé pedindo a abertura do seu processo de beatificação, e em 1982 foi beatificado.

Dez anos mais tarde, em 2002, foi canonizado pelo Papa João Paulo II perante uma numerosa multidão de cerca de 300 000 peregrinos que enchiam a praça de São Pedro e a via della Conciliazone. Nessa cerimónia o Papa denominou-o como “o santo do quotidiano”. “Que a tua vida não seja uma vida estéril. Sê útil, deixa rasto”. Estas palavras do primeiro ponto de ‘Caminho’ são as primeiras palavras que São Josemaria dirigiu por todo o mundo, e são sinal claro de que o seu autor as levava bem metidas dentro do seu coração.

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Depois dos anos trinta, São Josemaria levou uma vida normal, mas, foi, provavelmente, a mais abundantemente documentada, gravada, filmada de um santo de todos os tempos, em parte por ser um dos primeiros santos modernos, na era dos aviões, da rádio, da televisão e dos vídeos. No final da vida, tornou-se mais ativo na sua vida pública. Em 1968 publicou um livro de entrevistas, a que chamou “Conversaciones”. O livro inclui no final a homilia “Amar o mundo apaixonadamente”.

Nos princípios dos anos setenta, levou a cabo uma série de viagens pela Península Ibérica e América Latina onde muitas das suas tertúlias foram filmadas. Dois anos antes da sua morte, publicou o livro “Cristo que passa”, colectânea de homilias seguindo o ciclo litúrgico do ano. Não surpreende que parte do material deste volume seja dessa época: uma parte de “Cristo que passa” e de uma obra póstuma, compilação de homilias sobre temas vários, chamada “Amigos de Deus”.

Se bem que São Josemaria seja um escritor prolífico, não deixou tratados sistemáticos. Mas o certo é que os seus ensinamentos se encontram numa grande variedade de textos escritos ao longo de quase meio século: cartas, diários, devocionários, homilias, entrevistas: por esta razão uma antologia como a presente, é especialmente útil porque reúne textos essenciais procedentes de um campo vasto de fontes e coloca-as dentro das capas de um livro.

Foram muitos os critérios utilizados para a elaboração desta antologia. Acima de tudo fez-se um esforço por captar a essência do pensamento de São Josemaria, único e característico dos seus ensinamentos. Como era de esperar, Escrivá escreveu e pregou extensamente sobre todos os temas tradicionais da espiritualidade cristã. Muitos desses escritos são realmente de grande beleza, e vários deles incluem-se aqui, mas deu-se preferência àqueles que só ele – por assim dizer – poderia ter escrito.

O ponto fulcral está nos textos mais extensos, mas incluíram-se também parágrafos breves de alguns pontos de Caminho, Sulco e Forja com a finalidade de dar realce à personalidade de São Josemaria. As homilias publicadas são as suas obras mais formais, embora o seu fulgor obscureça por vezes a vivacidade patente nas gravações das tertúlias e dos escritos mais informais. Os textos mais breves – expressivos, cheios de colorido, directos -, revelam-nos o seu sentido de humor e o seu entusiasmo pelas coisas pequenas.

Os capítulos, divididos em cinco secções, foram ordenados segundo temáticas específicas. Os dois primeiros capítulos têm como título o de duas homilias importantes de 1967, “Amar o mundo apaixonadamente” e “Rumo à santidade”. Ambos tratam da santidade nas coisas pequenas do dia-a-dia, o primeiro, do ponto de vista da relação do cristão com o mundo, o segundo da relação íntima dos cristãos com Deus. E exprimem o que é o cerne da sua mensagem: um novo caminho para alcançar a santidade no meio do mundo. São como que uma introdução ideal, como que um olhar sobre a visão de São Josemaria.

O grupo de capítulos que se segue trata dos amores fulcrais da vida de São Josemaria: Jesus, a Santíssima Virgem e São José, e alguns dos grandes temas da espiritualidade do Opus Dei: a filiação divina, a vida contemplativa no meio do mundo, a Eucaristia (“centro e raiz da vida interior”, como costumava dizer São Josemaria) e a oração.

É evidente que para São Josemaria, a íntima união com Deus e a santidade heroica são para ser vividas nas situações do dia-a-dia, e os capítulos seguintes – que tratam de temas como o trabalho, a vida em família, amizade e apostolado, a caridade cristã e o sofrimento – consideram como é que um filho de Deus vive todas essas realidades com um espírito realmente contemplativo, transformando o dia inteiro em oração.

O penúltimo grupo de capítulos – Liberdade, Alegria e Luta interior – tratam de matérias menos concretas e mais importantes. Procuram captar o tom espiritual no concreto, o estilo, por assim dizer, que São Josemaria se esforçou por viver.

Por último, a última parte é constituída por três capítulos que caracterizam o cristão com três textos que se sobrepõem por assim dizer: o cristão na Igreja, o cristão como membro do Opus Dei, e como uma alma diante de um Deus paternal que nos ama. O último destes capítulos, que abre horizontes para a vida íntima de oração de São Josemaria, é o único auto-retrato de um santo como um burrinho.

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Este livro não é uma biografia nem um estudo acadêmico: é apenas uma antologia, uma seleção das palavras de um homem. Contudo, parece que, através desta obra, alguma coisa surge de entre as suas linhas. O produto final é, de certo modo, um retrato não somente de São Josemaria como autor, e da sua personalidade, mas também de um novo modo de vida, pelo qual os cristãos procuram a santidade no trabalho normal de cada dia no mundo, do modo pelo qual se sentiram chamados por Deus para o tornar possível.

Em conclusão, nestas palavras de São Josemaria, podemos, sem dúvida, vê-lo, ouvi-lo e conhecer o que era a razão de ser da sua proposta de vida. De facto é inevitável, pois, frequentemente, falava de “fazer o Opus Dei, sendo Opus Dei”. Assim, qualquer retrato de São Josemaria é necessariamente um retrato fulcral do Opus Dei

Entre os textos coligidos nesta antologia, através do exemplo de São Josemaria, o leitor poderá descobrir uma cultura muito concreta da santidade, e iniciar os seus passos num caminho novo para qualquer cristão. Com a ajuda da luz difundida por São Josemaria sobre os “enigmas” do Evangelho de Chesterton, descobriremos como lutar por sermos santos e apóstolos no meio do mundo.

John Wauck, nascido em Chicago, é sacerdote da Prelazia do Opus Dei. Estudou História em Harvard. Doutorou-se em Filosofia e atualmente tem a seu cargo um curso de Literatura e Fé cristã na Faculdade de Comunicação Institucional da Universidade Pontifícia da Santa Cruz. Antes de se ordenar sacerdote, colaborava como escritor de discursos de diversas personalidades políticas do Estado de Pensilvânia (EUA).

Notas

(1) Gilbert Keith Chesterton, “El Hombre Eterno”

(2) Homilía "Trabalho de Deus", em Amigos de Deus, 56.

(3) Charles Taylor, The Sources of the Self: the Making of the Modern Identity, Cambridge University Press, Cambridge 1992, p. 422.

(4) "New Orleans Times Picayune-States Item", 4 de Setembro de 1980, citado nas edições de Lewis A. Lawson, Victor A. Kramer, “Conversations with Walker Percy”, University Press of Mississippi, Jackson 1985, p. 4.

(5) Catecismo da Igreja Católica, n. 2013, citação do Vaticano II (Lumen Gentium, 40) e do Evangelho segundo São Mateus (Mt 5, 48).

(6) Lumen Gentium, 31, 32, 34.

(versão traduzida da original em italiano: "Un cammino attraverso il mondo")

"Un cammino attraverso il mondo")