29. A pessoa e a sociedade

Para a pessoa humana a vida social não é algo acessório, mas deriva da sociabilidade: a pessoa somente cresce e realiza sua vocação em união com os demais.

Resumo dos Ensinamentos Católicos

1. A sociabilidade humana

Deus não criou o homem como um «ser solitário», mas o quis como um «ser social» (cfr. Gn 1,27; 2,18.20.23). Para a pessoa humana a vida social não é algo acessório, ela deriva de uma importante dimensão inerente à sua natureza: a sociabilidade. O ser humano somente pode crescer e realizar sua vocação em união com os outros[1].

Esta natural sociabilidade faz-se mais patente à luz da fé, já que existe uma verdadeira semelhança entre a vida íntima da Santíssima Trindade e a comunhão (comum união, participação) que se deve instaurar entre os homens; e todos foram igualmente redimidos por Cristo e são chamados ao único e mesmo fim[2]. A Revelação mostra que a sociabilidade humana deve estar aberta a toda a humanidade, sem excluir a ninguém; e deve caracterizar-se por uma plena gratuidade, já que no próximo, mais que um igual, se vê a imagem viva de Deus, por quem é necessário estar disposto a se dar até o extremo[3].

O homem, portanto, «está chamado a existir “para" os demais, a converter-se em um dom»[4] ainda que não se limite a isto; está chamado a existir não só “com" os demais ou “junto" aos demais, mas “para" os demais, o que implica servir, amar. A liberdade humana «se envelhece quando o homem, cedendo a uma vida demasiado fácil, se encerra como em uma dourada solidão»[5].

A dimensão natural e o reforço sobrenatural da sociabilidade não significam, no entanto, que as relações sociais se possam deixar à pura espontaneidade: muitas qualidades naturais do ser humano (p. ex., a linguagem) requerem formação e prática para sua correta execução. Assim sucede com a sociabilidade: é necessário um esforço pessoal e coletivo para desenvolvê-la[6].

A sociabilidade não se limita aos aspectos políticos e mercantis, são mais importantes ainda as relações baseadas nos aspectos profundamente humanos: também pelo que se refere ao âmbito social se deve pôr em primeiro plano o elemento espiritual[7]. Daí deriva que a real possibilidade de edificar uma sociedade digna das pessoas se encontra no crescimento interior do homem. A história da humanidade não se move por um determinismo impessoal, mas pela interação de diferentes gerações de pessoas, cujos atos livres constroem a ordem social[8]. Tudo isso evidência a necessidade de conferir um relevo particular aos valores espirituais e às relações desinteressadas, que nascem da disposição à auto-doação, etc. E isso tanto como regra de conduta pessoal quanto como esquema organizativo da sociedade.

A sociabilidade se liga a outra característica humana: a radical igualdade e as diferenças acidentais das pessoas. Todos os homens possuem uma mesma natureza e uma mesma origem, foram redimidos por Cristo e chamados a participar na mesma bem-aventurança divina: «Todos gozam portanto de uma mesma dignidade» (Catecismo, 1934). Junto a esta igualdade existem também diferenças, que devem se valorizar positivamente se não são inócuas: «Estas diferenças pertencem ao plano de Deus, que quer que a cada um receba de outro aquilo que precisa, e que os que dispõem de talentos" particulares comuniquem seus benefícios aos que os precisem» (Catecismo, 1937).

2. A sociedade

A sociabilidade humana exerce-se mediante o estabelecimento de diversas associações dirigidas a atingir diferentes finalidades: «Uma sociedade é um conjunto de pessoas unidas de maneira orgânica por um princípio de unidade que supera a cada uma de elas» (Catecismo, 1880).

Os objetivos humanos são múltiplos, assim como os tipos de nexos: amor, etnia, idioma, território, cultura, etc. Por isso existe um amplo mosaico de instituições ou associações, que podem estar constituídas por poucas pessoas como a família, ou por um número sempre maior, à medida que se passa das diversas associações, às cidades, os Estados e a Comunidade internacional.

Algumas sociedades, como a família e a sociedade civil, correspondem mais imediatamente à natureza do homem e lhe são necessárias; ainda que também possuam elementos culturais que desenvolvem a natureza humana. Outras são de livre iniciativa e respondem ao que se poderia qualificar de “culturalização" da tendência natural da pessoa que, como tal, se tem de favorecer (cfr. Catecismo, 1882; Compêndio, 151).

O estreito nexo que existe entre a pessoa e a vida social explica o enorme influxo da sociedade no desenvolvimento pessoal, e o deterioramento humano que implica uma sociedade defeituosamente organizada: o comportamento das pessoas depende, em algum modo, da organização social, que é um produto cultural sobre a pessoa. Sem reduzir o ser humano a um elemento anônimo da sociedade[9], convém recordar que o desenvolvimento pleno da pessoa e o progresso social se influenciam mutuamente[10]: entre a dimensão pessoal e a dimensão social do homem não existe oposição senão complementaridade, mais ainda são duas dimensões em íntima conexão que se reforçam reciprocamente.

Neste sentido, por causa dos pecados dos homens, chegam-se a gerar na sociedade estruturas injustas ou estruturas de pecado[11]. Estas estruturas opõem-se à reta ordem da sociedade, fazem mais difícil a prática da virtude e mais fáceis os pecados pessoais contra a justiça, a caridade, a castidade, etc. Podem ser costumes imorais generalizados (como a corrupção política e econômica), ou leis injustas (como as que permitem o aborto), etc.[12]. As estruturas de pecado devem ser eliminadas e substituídas por estruturas justas.

Um meio de capital importância para desmontar as estruturas injustas e cristianizar as relações profissionais e a inteira sociedade, é o empenho por viver com coerência as normas de moral profissional; tal empenho é ademais condição necessária para santificar o trabalho profissional.

3. A autoridade[13]

«Toda comunidade humana precisa de uma autoridade que a governe. Esta tem seu fundamento na natureza humana. É necessária para a unidade da sociedade. Sua missão consiste em assegurar enquanto possível o bem comum da sociedade» (Catecismo, 1898).

Como a sociabilidade é uma qualidade própria da natureza humana, se deve concluir que toda autoridade legítima emana de Deus, como Autor da natureza (cfr. Rm 13,1; Catecismo, 1899). Mas «a determinação do regime e a designação dos governantes têm de deixar-se à livre vontade dos cidadãos»[14].

A legitimidade moral da autoridade não procede de si mesma: é ministra de Deus (cfr. Rm 13,4) em ordem ao bem comum[15]. Aqueles que estão constituídos em autoridade devem exercê-la como serviço, praticar a justiça distributiva, evitar o favoritismo e todo interesse pessoal, não se comportar de maneira despótica (cfr. Catecismo, 1902, 2235 e 2236).

«Se a autoridade pública pode, às vezes, renunciar a reprimir aquilo que provocaria, em caso de estar proibido, um dano mais grave (cfr. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I-II, q.96, a.2), no entanto nunca pode legitimar, como direito dos indivíduos —ainda que estes fossem a maioria dos membros da sociedade—, a ofensa infligida a outras pessoas mediante a negação de um direito seu tão fundamental como o da vida»[16].

Quanto aos sistemas políticos, «a Igreja aprecia o sistema da democracia, na medida em que assegura a participação dos cidadãos nas opções políticas e garante aos governados a possibilidade de eleger e controlar a seus próprios dirigentes»[17]. A ordenação democrática do Estado é parte do bem comum. Mas «o valor da democracia mantém-se ou cai com os valores que encarna e promove: fundamentais e imprescindíveis são certamente a dignidade da cada pessoa humana, o respeito de seus direitos inalienáveis»[18]. «Uma democracia sem valores converte-se com facilidade em um totalitarismo»[19].

4. O bem comum

Por bem comum se entende «o conjunto daquelas condições da vida social que permitem aos grupos e à cada um de seus membros conseguir mais plena e facilmente sua própria perfeição»[20]. O bem comum, portanto, não é só de ordem material senão também espiritual (ambos interconectados), e comporta «três elementos essenciais» (Catecismo, 1906):

— respeitar a pessoa e sua liberdade[21];

— tentar o bem-estar social e o desenvolvimento humano integral[22];

— promover «a paz, isto é, a estabilidade e a segurança de uma ordem justa» (Catecismo, 1909)[23].

Tendo em conta a natureza social do homem, o bem da cada um está necessariamente relacionado com o bem comum e este, a sua vez, deve estar orientado ao progresso das pessoas (cfr. Catecismo, 1905 e 1912)[24].

O âmbito do bem comum não é só a cidade ou o país. Existe também «um bem comum universal. Este requer uma organização da comunidade de nações» (Catecismo, 1911).

5. Sociedade e dimensão transcendente da pessoa

A sociabilidade concerne todas as características da pessoa e, portanto, sua dimensão transcendente. A profunda verdade sobre o homem, de onde deriva sua dignidade, consiste em ser imagem e semelhança de Deus e estar chamado à comunhão com Ele[25]; por isso «a dimensão teológica se faz necessária para interpretar e resolver os atuais problemas da convivência humana»[26].

Isto explica a fatuidade das propostas sociais que esquecem a dimensão transcendente. De fato, o ateísmo –em suas diferentes manifestações– é um dos fenômenos mais graves de nosso tempo e suas consequências são deletérias para a vida social[27]. Isto é particularmente evidente no momento atual: à medida que se perdem as raízes religiosas de uma comunidade, as relações entre seus componentes fazem-se mais tensas e violentas, porque se debilita e inclusive perde-se a força moral para atuar bem[28].

Se há o desejo de que a ordem social tenha uma base estável é necessário um fundamento absoluto, que não esteja a graça das opiniões versáteis ou dos jogos de poder; e só Deus é fundamento absoluto[29]. Deve-se, portanto, evitar a separação e, ainda mais, a contraposição entre as dimensões religiosa e social da pessoa humana[30]; é necessário harmonizar estes dois âmbitos da verdade do homem, que se implicam e se promovem mutuamente: a busca incondicional de Deus (Cfr. Catecismo, 358 e 1721; Compêndio, 109) e a solicitação pelo próximo e pelo mundo, que resulta reforçada pela dimensão teocêntrica[31].

Como consequência, é indispensável o crescimento espiritual para favorecer o desenvolvimento da sociedade: a renovação social nutre-se na contemplação. Efetivamente, o encontro com Deus na oração introduz na história uma força misteriosa que muda os corações, lhes move à conversão e, pelo mesmo, é a energia necessária para transformar as estruturas sociais.

Empenhar na mudança social, sem um empenho sério na mudança pessoal, é uma miragem para a humanidade, que acaba em desilusão e, muitas vezes, em um forte degrado vital. Uma «nova ordem social» realista e, portanto, sempre melhorável requer, contemporaneamente, acrescentar as concorrências técnicas e científicas necessárias[32], a formação moral e a vida espiritual; daí derivará a renovação das instituições e das estruturas[33]. Sem esquecer, ademais, que o empenho por edificar uma ordem social justa enobrece a pessoa que o realiza.

6. Participação dos católicos na vida pública

Participar na promoção do bem comum, a cada um segundo o lugar que ocupa e o papel que desempenha, é um dever «inerente à dignidade da pessoa humana» (Catecismo, 1913). «Ninguém se deve conformar com uma ética meramente individualista»[34]. Por isso «os cidadãos devem quanto seja possível tomar parte ativa na vida pública» (Catecismo, 1915)[35].

O direito e o dever de participar na vida social deriva do princípio de subsidiariedade: «Uma estrutura social de ordem superior não deve interferir na vida interna de um grupo social de ordem inferior, privando de suas concorrências, pelo contrário, deve lhe sustentar em caso de necessidade e lhe ajudar a coordenar sua ação com a dos demais componentes sociais, com olhas ao bem comum»[36].

Esta participação realiza-se, antes de mais nada, por meio do cumprimento responsável dos próprios deveres familiares e profissionais (cfr. Catecismo, 1914) e das obrigações de justiça legal (como, p. ex., o pagamento de impostos)[37]. Também se realiza mediante a prática das virtudes, especialmente da solidariedade.

Tendo em conta a interdependência das pessoas e dos grupos humanos, a participação na vida pública deve fazer com um espírito de solidariedade, entendido como empenho em prol dos demais[38]. A solidariedade deve ser o fim e o critério para organizar a sociedade, não como simples desejo moralizante, mas também como explícita e legítima exigência do ser humano; em boa medida, a paz do mundo depende dela (cfr. Catecismo, 1939 e 1941)[39]. Ainda que a solidariedade compreenda a todos os homens, uma razão de urgência faz que a solidariedade seja mais necessária quanto mais difíceis sejam as situações das pessoas: trata-se do amor preferencial pelos necessitados (cfr. Catecismo, 1932, 2443-2449; Compêndio, 183-184).

Enquanto cidadãos, os fiéis têm os mesmos deveres e direitos daqueles que se encontram em idêntica situação; como católicos, têm uma responsabilidade adicional (cfr. Tt 3,1-2; 1 P 2,13-15)[40]. Por isso, «os fiéis leigos de nenhum modo podem abdicar da participação na “política"»[41]. Esta participação é particularmente necessária para conseguir «que as exigências da doutrina e da vida cristãs impregnem as realidades sociais, políticas e econômicas» (Catecismo, 899).

Já que em não poucas ocasiões as leis civis não se ajustam ao ensinamento da Igreja, os católicos devem fazer o possível, colaborando com outros cidadãos de boa vontade, para retificar essas leis, sempre dentro dos caminhos legítimos e com caridade[42]. Em qualquer caso, devem ajustar sua conduta à doutrina católica, ainda que isso lhes possa acarretar inconvenientes, tendo em conta que se deve obedecer a Deus dantes que aos homens (cfr. At 5,29).

Em suma, os católicos devem exercer seus direitos civis e cumprir seus deveres; isto se refere especialmente aos fiéis leigos, que estão chamados a santificar o mundo desde dentro, com iniciativa e responsabilidade, sem esperar que a Hierarquia resolva os problemas com as autoridades civis ou lhes proponha as soluções que devem adotar[43].

Enrique Colom Bibliografía básica:

Catecismo da Igreja Católica, 1877-1917; 1939-1942; 2234-2249.

Compêndio da doutrina social da Igreja, 34-43; 149-151; 164-170; 541-574.

Leituras recomendadas:

São Josemaria, Homilia Cristo Rei, em É Cristo que passa, 179-187.

Congregação para a Doutrina da Fé, Nota doutrinal sobre algumas questões relativas ao compromisso e a conduta dos católicos na vida política, 24-11-2002.

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[1] Cfr. Concilio Vaticano II, Gaudium et spes, 24-25; Congregação para a Doutrina da Fé, Inst. Libertatis conscientia, 32; Compêndio, 110.

[2] «Estar em comunhão com Jesus Cristo faz-nos participar em seu ser “para todos", faz que este seja nosso modo de ser. Compromete-nos em favor dos demais, mas só estando em comunhão com Ele podemos realmente chegar a ser para os demais, para todos», (Bento XVI, Enc. Spe salvi, 30-11-2007, 28).

[3] Cfr. João Paulo II, Enc. Sollicitudo rei socialis, 30-12-1987, 40.

[4] João Paulo II, Carta Apost. Mulieris dignitatem, 15-8-1988, 7.

[5] Concilio Vaticano II, Const. Gaudium et spes, 31.

[6] «A sociabilidade humana não comporta automaticamente a comunhão das pessoas, o dom de si. Por causa da soberba e do egoísmo, o homem descobre em si mesmo gérmenes de insociabilidade, de encerramento individualista e de vexação do outro» (Compêndio, 150).

[7] Cfr. Bento XVI, Enc. Spe salvi, 24 a).

[8] «A sociedade historicamente existente surge do entrelaçamento das liberdades de todas as pessoas que nela interatuam, contribuindo, mediante suas opções, à edificar ou a empobrecê-la» (Compêndio, 163).

[9] «O princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais é e deve ser a pessoa humana» (Concilio Vaticano II, Const. Gaudium et spes, 25). Cfr. Pío XII, Radiomensagem de Natal, 24-12-1942: AAS 35 (1943) 12; João XXIII, Enc. Mater et magistra: AAS 53 (1961) 453; Catecismo, 1881; Compêndio, 106.

[10] Cfr. João Paulo II, Enc. Sollicitudo rei socialis, 38; Catecismo, 1888; Compêndio, 62, 82 e 134.

[11] Cfr. João Paulo II, Enc. Sollicitudo rei socialis, 36.

[12] «A Igreja, quando fala de situações de pecado ou denúncia como pecados sociais determinadas situações ou comportamentos coletivos (...), sabe e proclama que estes casos de pecado social são o fruto, a acumulação e a concentração de muitos pecados pessoais. Trata-se de pecados pessoalíssimos de quem gera ou favorece a iniquidade ou aproveita-a; de quem, podendo fazer algo por evitar, eliminar, ou, ao menos, limitar determinados males sociais, omite o agir por preguiça, medo e encobrimento, por cumplicidade solapada ou por indiferença; de quem busca refúgio na suposta impossibilidade de mudar o mundo; e também de quem pretende se poupar a fadiga e o sacrifício», (João Paulo II, Ex. Apost. Reconciliatio et paenitentia, 2-12-1984, 16).

[13] Cfr. Concilio Vaticano II, Const. Lumen gentium, 36; João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 1-V-1991, 38; Compêndio, 570. Trata-se, geralmente, de um processo, não de uma mudança instantâneo, o qual comporta que os fiéis muitas vezes terão que conviver com essas estruturas e sofrer suas consequências, sem se deixar corromper e sem perder o empenho pelas mudar. Convém meditar as palavras do Senhor: «Não te peço que os saques do mundo senão que os preserves do mau» (Jo 17,15).

[14] Concilio Vaticano II, Const. Gaudium et spes, 74. Cfr. Catecismo, 1901.

[15] «A autoridade só se exerce legitimamente se busca o bem comum e se, para o atingir, emprega meios moralmente lícitos. Se os governantes proclamassem leis injustas ou tomassem medidas contrárias à ordem moral, estas disposições não podem obrigar em consciência» (Catecismo, 1903).

[16] João Paulo II, Enc. Evangelium vitae, 25-3-1995, 71.

[17] João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 46.

[18] João Paulo II, Enc. Evangelium vitae, 70. O Papa refere-se em particular ao direito da cada ser humano inocente à vida, ao que se opõem as leis do aborto.

[19] João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 46.

[20] Concilio Vaticano II, Const. Gaudium et spes, 26. Cfr. Catecismo, 1906.

[21] «Em nome do bem comum, as autoridades estão obrigadas a respeitar os direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa humana. Em particular, o bem comum reside nas condições de exercício das liberdades naturais que são indispensáveis para o desenvolvimento da vocação humana» (Catecismo, 1907).

[22] A autoridade, respeitando o princípio de subsidiariedade e promovendo a iniciativa privada, deve tentar que a cada um disponha do necessário para levar uma vida digna: alimento, vestido, saúde, trabalho, educação e cultura, informação adequada, etc.: cfr. Catecismo, 1908 e 2211.

[23] A paz não é só ausência de guerra. A paz não pode se atingir sem a salvaguarda da dignidade das pessoas e dos povos: cfr. Catecismo, 2304. A paz é a «tranquilidade da ordem» (Santo Agustinho, De civitate Dei, 19,13). É obra da justiça: cfr. Is 32,17. A autoridade deve tentar, por meios lícitos, «a segurança da sociedade e de seus membros. O bem comum fundamenta o direito à legítima defesa individual e coletiva» (Catecismo, 1909).

[24] «A ordem social e seu progresso devem subordinar-se ao bem das pessoas (...) e não o contrario», (Concilio Vaticano II, Enc. Gaudium et spes, 26).

[25] Cfr. Concilio Vaticano II, Const. Gaudium et spes, 19.

[26] João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 55. Cfr. Concilio Vaticano II, Gaudium et spes, 11 e 41.

[27] Cfr. João Paulo II, Enc. Evangelium vitae, 21-24. João Paulo II, após falar do erro das ideologias, acrescentava: «Se depois perguntamo-nos onde nasce essa errônea concepção da natureza da pessoa e da “subjetividade" da sociedade, há que responder que sua causa principal é o ateísmo. Precisamente na resposta ao chamado de Deus, implícito no ser das coisas, é onde o homem se faz consciente de seu transcendente dignidade. (...) A negação de Deus priva de seu fundamento à pessoa e, consequentemente, induze-a a organizar a ordem social prescindindo da dignidade e responsabilidade da pessoa» (João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 13).

[28] O homem pode construir a sociedade e «organizar a terra sem Deus, mas, ao final e ao cabo, sem Deus não pode senão organizá-la contra o homem. O humanismo exclusivo é um humanismo desumano» (Paulo VI, Enc. Populorum progressio, 26-3-1967, 42). Cfr. João XXIII, Enc. Mater et magistra: AAS 53 (1961) 452-453; Concilio Vaticano II, Const. Gaudium et spes, 21; Bento XVI, Enc. Deus caritas est, 25-12-2005, 42.

[29] Cfr. Leão XIII, Enc. Diuturnum illud: Ata Leonis XIII, 2 (1882) 277 e 278; Pio XI, Enc. Caritate Christi: AAS 24 (1932) 183-184.

[30] Alguns «vêem o cristianismo como um conjunto de práticas ou atos de piedade, sem perceber sua relação com as situações da vida corrente, com a urgência de atender às necessidades dos demais e de se esforçar por remediar as injustiças. (...) Outros —em contrapartida— tendem a imaginar que, para poder ser humanos, há que pôr na surdina alguns aspectos centrais do dogma cristão, e atuam como se a vida de oração, o trato contínuo com Deus, constituíssem uma fugida ante as próprias responsabilidades e um abandono do mundo. Esquecem que, precisamente Jesus, nos deu a conhecer até que extremo devem se levar o amor e o serviço. Somente[J1] se tentamos compreender o arcano do amor de Deus, desse amor que chega até a morte, seremos capazes de entregamo-nos [J2] totalmente aos demais, sem nos deixar vencer pela dificuldade ou pela indiferença», (São Josemaria, É Cristo que passa, 98).

[31] Existe uma profunda «interação entre amor a Deus e amor ao próximo (...). Se em minha vida falta completamente o contato com Deus, poderei ver sempre no próximo unicamente ao outro, sem conseguir reconhecer nele a imagem divina. Pelo contrário, se em minha vida omito do todo a atenção ao outro, querendo ser só “piedoso" e cumprir com meus “deveres religiosos", se murcha também a relação com Deus» (Bento XVI, Enc. Deus caritas est, 18). Cfr. João Paulo II, Enc. Evangelium vitae, 35-36; Compêndio, 40.

[32] «Todo trabalho profissional exige uma formação prévia, e depois um esforço constante para melhorar essa preparação e a acomodá-la às novas circunstâncias que coincidam. Esta exigência constitui um dever particularíssimo para os que aspiram a ocupar postos diretivos na sociedade, já que têm de estar chamados a um serviço também muito importante, do que depende o bem-estar de todos» (São Josemaria, Questões atuais do Cristianismo, 90).

[33] «A um mundo melhor contribui-se somente fazendo o bem agora e em primeira pessoa, com paixão e onde seja possível» (Bento XVI, Enc. Deus caritas est, 31 b).

[34] Concilio Vaticano II, Const. Gaudium et spes, 30.

[35] «Um homem ou uma sociedade que não reaja ante as tribulações ou as injustiças, e que não se esforce pelas aliviar, não são um homem ou uma sociedade à medida do amor do Coração de Cristo. Os cristãos —conservando sempre a mais ampla liberdade à hora de estudar e de levar à prática as diversas soluções e, portanto, com um lógico pluralismo—, têm de coincidir no idêntico afã de servir à humanidade. De outro modo, seu cristianismo não será a Palavra e a Vida de Jesus: será um disfarce, um engano de cara a Deus e de cara aos homens» (São Josemaria, É Cristo que passa, 167).

[36] João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 48. Cfr. Catecismo, 1883; Compêndio, 186 e 187.

«O princípio de subsidiariedade opõe-se a toda forma de coletivismo. Traça os limites da intervenção do Estado. Tenta harmonizar as relações entre indivíduos e sociedade. Tende a instaurar uma verdadeira ordem internacional» (Catecismo, 1885).

Deus «entrega a cada criatura as funções que é capaz de exercer, segundo as capacidades de sua natureza. Este modo de governo deve ser imitado na vida social. O comportamento de Deus no governo do mundo, que manifesta tanto respeito à liberdade humana, deve inspirar a sabedoria dos que governam as comunidades humanas. Estes devem se comportar como ministros da providência divina» (Catecismo, 1884).

[37] A justiça legal é a virtude que inclina à pessoa a dar o que o cidadão deve equitativamente à comunidade: cfr. Catecismo, 2411.

«A submissão à autoridade e a co-responsabilidade no bem comum exige moralmente o pagamento dos impostos» (Catecismo, 2240). «A fraude e outros subterfúgios mediante os quais alguns escapam à obrigação da lei e às prescrições do dever social devem ser firmemente condenados por incompatíveis com as exigências da justiça» (Catecismo, 1916).

[38] «Trata-se da interdependência, percebida como sistema determinante de relações no mundo atual, em seus aspectos econômico, cultural, político e religioso, e assumida como categoria moral. Quando a interdependência é reconhecida assim, sua correspondente resposta, como atitude moral e social, e como “virtude", é a solidariedade» (João Paulo II, Enc. Sollicitudo rei socialis, 38).

[39] Cfr. Compêndio, 193-195.

[40] Cfr. Concilio Vaticano II, Gaudium et spes, 75.

[41] João Paulo II, Ex. Ap. Christifideles laici, 30-12-1988, 42.

[42] Por exemplo, «quando não seja possível evitar ou arrogar completamente uma lei abortista, um parlamentar, cuja absoluta oposição pessoal ao aborto seja clara e notória a todos, pode licitamente oferecer seu apoio a propostas encaminhadas a limitar os danos dessa lei e diminuir assim os efeitos negativos no âmbito da cultura e da moralidade pública» (João Paulo II, Enc. Evangelium vitae, 73).

[43] Corresponde aos leigos, «por sua livre iniciativa e sem esperar passivamente consignas ou diretrizes, penetrar com espírito cristão a mentalidade e os costumes, as leis e as estruturas de suas comunidades de vida» (Paulo VI, Enc. Populorum progressio, 81). Cfr. Concilio Vaticano II, Const. Lumen gentium, 31; Const. Gaudium et spes, 43; João Paulo II, Ex. Ap. Christifideles laici, 15; Catecismo, 2442. [J1] [J2]