São Josemaria no Golfo

O Dubai é apenas um dos sete Emirados Árabes Unidos. E, nesse lugar, mais de 70% da população é estrangeira. Esses novos habitantes provêm da Ásia, Europa e América e, movidos pela crise econômica em diferentes níveis, deixaram seus países em busca de oportunidades de trabalho. Mas encontrar um país muçulmano que permita a prática da fé cristã é um desafio, uma batalha que os cristãos travam há séculos.

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Opus Dei - São Josemaria no Golfo Concelebração na Dedicação da capela de Santa Teresa. (Cortesia de avosa.org).

Um pouco de história

A marca cristã na península arábica remonta aos séculos IV e V. Após a implantação do Islão, no século VII, o cristianismo praticamente desapareceu da região. A presença católica atual, que cresceu rapidamente a partir dos anos 90, deve-se a fiéis de outros países que se deslocaram, por motivo de trabalho, para os países do Golfo. E não são poucos, mas, para surpresa de muitos, são milhões.

Em 1954 constituiu-se o Vicariato apostólico do Kuwait, separado do resto da península. Nas décadas posteriores, a população da zona cresceu enormemente - de 11 milhões, em 1960, passou para 35 milhões em 1990, 47 em 2000 e chegou aos 77 milhões de habitantes em 2014, muitos procedendo de outros países. Por esse motivo, em 2011 reorganizou-se a atenção pastoral da zona em dois vicariatos apostólicos: Arábia do Norte (Kuwait, Bahrein, Qatar e Arábia Saudita) e Arábia do Sul (Emirados Árabes, Oman e Iémen).

Embora seja difícil obter dados exatos - calcula-se que os católicos superem de longe um milhão na Arábia Saudita, com 350 mil no Kuwait, 80 mil no Bahrein, quase 300 mil no Qatar, e, nos Emirados Árabes, Oman e Iémen os católicos chegam a praticamente um milhão. Cerca de 80% são de rito latino, os demais de vários ritos orientais, de mais de uma centena de países de origem e com uma forte presença do sudeste asiático.

A Igreja pode praticar a sua fé em muitos destes países, de forma privada e, com certas restrições, de forma pública. Esse grande volume de fiéis dá lugar a algumas peculiaridades. Por exemplo, há poucas igrejas e poucos sacerdotes, o culto é em muitos idiomas e ritos, o dia de preceito costuma mudar para sexta-feira, as missas estão sempre repletas... Em cada país (salvo na Arábia Saudita) há alguma paróquia, sem símbolos externos da fé cristã, em recintos dedicados às confissões que não são do Islão, com uma participação muito ativa dos fiéis apesar das condições de trabalho, com frequência, não facilitarem a presença à Missa.

O caso do Dubai

O Emirado do Dubai é um dos sete que compõem os Emirados Árabes Unidos. O desenvolvimento peculiar da região nas últimas décadas provoca uma demografia pouco habitual, de dois milhões e meio de habitantes sendo que uma porcentagem muito elevada é de origem estrangeira (embora não haja estatísticas oficiais, calcula-se que cerca de 90% da população local é de estrangeiros no conjunto dos EAU). Cerca de 70% da população é de homens e quase 60% têm entre 25 e 44 anos.

Os católicos do emirado agrupam-se em duas paróquias: St. Mary, que foi criada nos anos 60 em Dubai, a capital, e St. Francis of Assisi, em Jebel Ali, inaugurada em 2001. Estão construídas em terreno doado pelo Emirado. Diz-se que St. Mary é a paróquia que mais recebe paroquianos em todo o mundo: cerca de 300 mil fiéis.

A atenção pastoral aos fiéis requer uma vida sacramental intensa. Nos dias de preceito, celebram-se várias missas em inglês, mais algumas em outras línguas: tagalo (Filipinas), concani (Índia), malabar (Índia), tamil (Índia, Sri Lanka e Singapura), cingalês (Sri Lanka), urdu (Índia y Paquistão), árabe, coreano, espanhol, português, alemão, francês, italiano, polaco, eslovaco ou ucraniano. E a estas acrescentam-se as de outros ritos católicos: malankar, melquita ou maronita. Todas as celebrações são repletas por milhares de assistentes. Os grupos de catequese ou o conselho pastoral também refletem as diferentes comunidades que configuram a paróquia.

No Dubai também se cumprem, de novo, as promessas do Antigo Testamento: o Povo de Deus é mais numeroso do que a areia da praia ou as gotas do mar.

Um bairro humilde de Dubai (fotografia sob licença CC0)

A vida em Dubai

Para além das guerras e da crise de refugiados, há um terceiro aspecto que marcou a migração para os países do Golfo nos últimos anos: as oportunidades de trabalho. Muitos estrangeiros (no caso do Dubai, mais de 70% da população) instalaram-se ali em busca de novas oportunidades profissionais.

Não é só o petróleo que há anos oferece oportunidades de trabalho aos estrangeiros no Dubai, mas também a instituição bancária, a área de construção, o transporte, os serviços. Embora todos entrem na categoria de “estrangeiros”, o estilo de vida nos Emirados Árabes é muito diferente para cada pessoa. Em geral, europeus e americanos levam vidas relativamente confortáveis enquanto asiáticos trabalham para enviar dinheiro para as suas famílias que, em grande escala, continuam a residir em seus países de origem.

Dubai é a terra dos extremos. No mesmo espaço edifícios com preços altíssimos contracenam com trabalhadores de contratos de doze horas por dia, seis dias por semana e que partilham apartamentos minúsculos com outras dez pessoas.

Uma situação de contrastes

Leah Mae está apenas há cinco anos em Dubai, mas é capaz de apreciar as desvantagens da bonança financeira. Embora agradeça as facilidades para comprar um automóvel, dispor de uma boa variedade de alimentos ou usufruir de alojamentos e educação pagos por parte da empresa para a qual trabalha, “ter todas estas comodidades também conduz a um estilo de vida materialista. Muita gente não está contente e procura continuamente a última novidade e, no final, o valor dilui-se”.

Para Maya, guatemalteca, “A estadia no Dubai deu-nos uma visão global, dando-nos a conhecer tantas e tão diferentes culturas num mesmo lugar. Com desafios e situações novas que tivemos que enfrentar como família com o meu marido e os meus filhos; fizemos amizades lindíssimas aprendendo a valorizar, respeitar e conviver com pessoas de diferentes credos e formas de pensar”.

No âmbito profissional também há contradições. Fabien, francês, está há três anos no Dubai e conta que “o clima business-friendly e o dinamismo empresarial são vantagens importantes, mas o foco nos negócios pode converter-se rapidamente em um problema, porque faz com que se ande correndo todo o dia atrás do dinheiro, de forma insaciável, e isso acaba se convertendo em uma nova religião”.

A possibilidade de assegurar um futuro aos filhos ou irmãos é a que leva tantos a cruzar oceanos e a manter-se em um país estranho. É o caso de Gwen e do marido, que acabam de ter seu primeiro filho. Os seus trabalhos atuais permitem-lhes poupar, investir, construir uma casa no seu país de origem e assegurar o futuro dos filhos.

Mas ajudar economicamente a família implica, em muitos casos, enfrentar a dor de viver sem eles. São decisões difíceis. Rose Nduku Mulwa está há oito anos no Dubai, mas o marido e o filho de 15 anos continuam no Quênia. Às vezes, confessa, tem vontade de deixar tudo e regressar. Também José Antonio Pacuan, pai de nove filhos, mudou-se em 2012 para os Emirados para conseguir mais proveitos econômicos para a família que ficou nas Filipinas. Uma das suas filhas mais velhas já o tornou avô, mas no ano passado outro deles faleceu num acidente. Agora, a sua esposa, com a saúde fragilizada está com ele em Abu Dhabi. Levar a família para frente é a única coisa que o mantém ali.

Mas quando a família completa se muda, a situação é diferente. María Isabel Batres é da Guatemala, seu marido é piloto. Vivem no Dubai há oito anos, com os seus dois filhos. Valoriza positivamente este tempo porque o fato de estar longe de familiares e amigos reforçou os vínculos familiares. “Quando as famílias se mudam para o estrangeiro, podem suceder duas coisas: ou os laços se fortalecem ou os casais se separam. A fé me permitiu manter a minha família unida e mais forte.” Também destaca outro aspecto: envolveram-se mais a fundo em transmitir a fé aos seus filhos, que não puderam frequentar uma escola católica. “Cabe-nos, aos pais, educar os filhos na fé e, por isso, necessito estudar mais”.

Mike, cujo filho mais novo já está na universidade, confessa que a educação dos filhos não foi fácil. “As crianças estavam expostas a uma cultura com valores muito diferentes dos nossos e esse fato requer muita fortaleza e um trabalho constante por parte dos pais para assegurar que não caiam no engodo do estilo de vida do Dubai”.

Já para os mais jovens, viver nos Emirados é uma oportunidade especialmente boa, que lhes permite crescer em independência ao mesmo tempo que, em muitos casos, ajudam as suas famílias. Nicholette, de 23 anos, deixou o seu trabalho de professora e agora é secretária em uma multinacional: “Queria sair da minha zona de conforto, explorar quem sou e o que quero fazer no futuro”.

Juan Pablo, de 30 anos, que está no Dubai como gerente de uma empresa, tem uma experiência semelhante: “Vir para cá me permitiu- crescer, amadurecer e a me conhecer- melhor, pessoal e profissionalmente”. Em contrapartida, “há muitas horas de trabalho e sentimos muito a falta da família, embora também seja verdade que quando se regressa à Espanha apreciamos mais os momentos com os nossos”.

Interior de St Mary Catholic Church, Dubai (©St. Mary Catholic Church , Dubai, cortesia de avosa.org).

Cuidar da fé

Ao ponderar a ida para os Emirados Árabes, alguns investigam as possibilidades que terão para praticar ali a sua fé. Antes de emigrar, Gwen ponderou se a oportunidade profissional também lhe permitiria continuar a crescer espiritualmente. A grande maioria chega convencida de que não poderão praticar sua própria religião num país muçulmano.

No entanto, para uns e outros é uma surpresa a piedade, a variedade e a participação de uma multidão de católicos nos sacramentos. Os europeus, além disso, destacam o fervor e a juventude dos assistentes. Ali, a Missa não é coisa de mulheres e velhos. Fabien e Marc surpreenderam-se com a quantidade de crianças que correm entre bancos e corredores.

Nicholette recorda que a primeira vez que assistiu à celebração eucarística em St. Mary não pôde chegar à entrada, devido à enorme quantidade de assistentes. “A Igreja no Dubai é verdadeiramente católica, universal, onde pessoas de todo o tipo são bem-vindas e há respeito mútuo entre todos os fiéis”, explica. Já Louelle ficou impressionada com as filas para os confessionários.

Rickson recorda a impressão que teve ao chegar: “A primeira coisa que notei quando entrei em St. Mary foi o enorme que é. Nunca tinha visto uma igreja tão grande. Está sempre cheia, abarrotada de gente. A minha paróquia na Índia é muito menor e nem sempre tão viva. É fantástico ver como cresce a comunidade católica no Dubai”.

Além disso, a paróquia celebra a Missa em diferentes idiomas e ritos, para permitir que todos os assistentes possam participar melhor na liturgia. Por exemplo, Maria Katbe, desenhadora libanesa de rito greco-católico, agradece muito a Missa em árabe, com mais familiaridade com a do seu país de origem.

A diversidade de horários também é um desafio na hora de planejar as atividades da paróquia. Liza trabalha num centro comercial, em turnos de doze horas, que mudam continuamente, seis dias por semana. Isto limita bastante as suas possibilidades para assistir diariamente à Missa. Mas tenta.

Ainda assim, parte do apostolado é animar outros cristãos a cuidar de sua fé, a não abandonar a prática religiosa, embora possa lhe exigir mais atenção.

Carol veio em 2009 das Filipinas. “Chamou-me a atenção que, como as crianças não aprendem a fé nas escolas, as paróquias dedicam grande parte dos seus recursos às aulas de catecismo. Este esforço coletivo e o número elevado de alunos não costumo ver no meu país, talvez porque a catequese está integrada no curriculum escolar ou ensina-se em casa. Além disso, há diferentes grupos e associações que participam muito ativamente na paróquia e ajudam a comunidade católica”.

As pessoas que provêm de países católicos estão habituadas a ter muitas igrejas próximas. No Dubai, é o contrário - apesar do esforço que fazem as paróquias para facilitar ao máximo a participação dos fiéis, há outras dificuldades. As duas igrejas estão muito longe uma da outra - cerca de 40 quilômetros. “Para ir à Missa nós nos preparamos - como se fossemos para uma excursão”, diz Maria Isabel. “E os dias mais importantes, como o Natal, a Quaresma ou a Semana Santa, são um verdadeiro desafio porque as paróquias estão sempre muito repletas de pessoas”.

A Igreja faz tudo de sua parte para facilitar o cumprimento do preceito dominical. Maricar, que é uma recém chegada, está admirada: “Com a Missa do domingo celebrada três dias por semana, é uma vergonha perdê-la!” Mesmo durante a semana: Jackie e algumas amigas foram pedir à paróquia uma missa nos dias úteis para as mães que não podem assistir a que se celebra no início da manhã ou no fim da tarde, porque nestas horas estão ocupadas com as crianças. Agora há missa às 9 da manhã em St. Francis e às 12 em St. Mary, com centenas de assistentes diários.

A gruta de Lourdes, em St. May (Dubai). Fotografia cortesia de avosa.org.

O valor das dificuldades

A fé apoia os católicos nos momentos de solidão, de tentação ou de desânimo. “São ocasiões de crescer em fortaleza”, explica Louelle. “E em humildade, paciência, confiança”, acrescenta Nicholette; “Percebo a importância de viver cada dia com santo abandono; hoje tenho um trabalho relativamente bem pago e um teto sob o qual me abrigar, mas amanhã pode acontecer de perder tudo”. Para Fabien, “neste mundo de arranha-céus e de dinheiro, a fé converte-se numa bússola que dá sentido e permite evitar os perigos”.

Melane tem a mesma opinião: “Perante situações que não posso controlar ou explicar, diante de algo difícil de entender, necessito confiar na vontade de Deus e acreditar que tudo sucede por algum motivo. Não é fácil, é uma luta diária, mas pela graça de Deus sobrevivi. Longe da família e dos amigos, não podemos nos apoiar em nada nem em ninguém para nos tranquilizar, proteger, guiar, salvo em Deus”.

Nos momentos difíceis, “seguramente a única maneira de encontrar consolo e de nos mantermos vinculados às nossas origens é a religião católica”, expõe Juan Pablo. “A fé mantém-me firme, com ânimo, com esperança, com vontade de seguir em frente, dá-me consolo quando me sinto só, quando me sinto abatido. É a essência da vida, não importa para onde vás, não importa onde estejas, Deus estará sempre contigo”, acrescenta.

Para Marc, a Igreja está sempre presente, com os braços abertos para ajudar a superar as quedas. “A cada semana, na Missa, tem-se a oportunidade de recomeçar e arranjar força, e esta é a chave para seguir em frente. Precisamente porque aqui preciso de mais tempo e esforço para ir à paróquia, valorizo mais o tempo diante do Santíssimo”.

Falar de Deus?

Apesar da liberdade para praticar as diferentes confissões, é proibido evangelizar os muçulmanos, sob pena de prisão ou deportação. Como pode, então, um católico dar testemunho? De acordo com os protagonistas desta história, há muitas maneiras.

Liza procura dar testemunho no seu trabalho tratando os colegas com respeito e amabilidade, fazendo bem e com amor o seu trabalho. “A melhor lição que aprendi de S. Josemaria é acompanhar sempre o trabalho com oração e oferecê-lo; não importa se é difícil ou cansativo, deixa de ser uma carga porque o faço por Deus”.

Segundo Mike, trata-se de dar uma resposta cristã a cada situação, mostrando amor, misericórdia, compaixão. Nesta mesma linha pensa Carol: “Em um país com tanta diversidade de religiões, culturas e crenças, um cristão deve demonstrar um desejo constante de transcender todas as diferenças e os preconceitos raciais, de compreender o que é a caridade e tratar a todos do mesmo modo como faria Jesus”.

Não se trata de fazer discursos, explica María Isabel, “mas de viver como cristãos, seguir as leis do país, dar bom exemplo como família unida, mostrando a luz de Cristo”. Para Maya, a chave está nos detalhes do próprio comportamento: “Unicamente com o modo de atuar no dia a dia. Nas coisas pequenas, como sorrir pela manhã no elevador, ter sempre um gesto amável, uma atenção para o vizinho, uma atitude de respeito para com os seus costumes e práticas religiosas, sendo compreensivo com as suas normas ou restrições. Rezar por eles e procurar viver em harmonia levando o selo cristão no vestir, falar e atuar”.

Fabien salienta a oportunidade de pôr em prática atitudes que são mais difíceis no próprio país. “Como católicos, aprendemos ideias bonitas sobre tolerância que aplicamos pouco na vida diária, por exemplo acolhendo estrangeiros ou refugiados. No Dubai, temos a extraordinária oportunidade de trabalhar com toda a gente, com todas as religiões. Tolerância e valores cristãos ganham sentido real no nosso dia concreto”.

Alejandro, que partilhou o apartamento com três muçulmanos, acaba dizendo: “Aprendemos muito uns com os outros. Ficam muito surpreendidos quando lhes digo que somos filhos de Deus, que Deus nos ama e que a fé gera conhecimento de Deus”.

Nos Emirados Árabes vivem, há vários anos, fiéis e cooperadores do Opus Dei de todos os cantos do mundo. Como o número era cada vez maior, a partir de 2009, vários sacerdotes começaram a fazer escala em Dubai, aproveitando outras viagens a partir da Índia ou do Quênia, para atender as necessidades espirituais das pessoas que viviam na região.

Em junho de 2009 foi a primeira vez que se celebrou a Missa de S. Josemaria no Emirado, na Paróquia de St. Francis de Jebel Ali. O celebrante foi o Pe. Albert Pampillón, já falecido, que tinha feito escala a caminho de Nairobi. Surpreendentemente – porque se trata de um país muçulmano, onde ainda hoje, não há nenhuma sede do Opus Dei – apareceram setenta pessoas.

Até esse momento, os poucos supernumerários e cooperadores que residiam no país, organizavam-se entre si para organizar alguns meios de formação cristã. Em 2012 as visitas dos sacerdotes começaram a ser mais fixas, todos os meses, e graças a isso, puderam começar recolhimentos para homens e para mulheres, uma parada mensal de umas horas para rezar, dirigida por um sacerdote e aberta a quem estiver interessado.

Desde junho de 2015 esses encontros estenderam-se também ao Qatar onde, de três em três meses, ocorrem na igreja de Our Lady of the Rosary de Doha, a capital. “Antes de iniciar esse trabalho, foram contatados dois representantes da Igreja local (do Norte e do Sul da Arábia), que deram a sua autorização, e a quem se procura manter informado do que fazemos”, explica o Pe. Ferran Canet, que há alguns anos se desloca do Líbano para pregar em Qatar.

O padre Ferrant explica assim a sua experiência: “Quando falo dessas viagens quase sempre me perguntam se vou vestido de sacerdote, se é perigoso, se tive algum problema por ser sacerdote... Sempre que viajei para um país árabe (e já fui ao Egito, ao Kuwait, ao Dubai e ao Qatar) fui vestido de sacerdote. E nunca tive qualquer problema. De fato, o único problema que me surgiu foi quando o meu velho passaporte se partiu em dois nas mãos de um policial que devia pôr o visto de entrada no Dubai, e a questão foi resolvida quando outro policial o inspecionou e viu que eu tinha nascido em Barcelona: devolveu me com um "visca el Barça", em perfeito catalão, e acabou o problema”.

“Em ambos os casos, no Dubai e no Qatar, os recolhimentos começaram com a presença de alguns fiéis da Prelazia que viviam nesses países por motivos profissionais. Durante esse tempo, muitas pessoas foram aparecendo e desaparecendo, pois é frequente que a estadia seja de três ou quatro anos. Com a globalização e a crise econômica, essa região do mundo foi, para muitos, uma oportunidade para ultrapassar a tormenta, enquanto para outros tratou-se, simplesmente, de aproveitar mercados bastante ativos. Tudo isto facilitou para que houvesse pessoas de todo o mundo, e entre eles, logicamente, também muitos católicos”, acrescenta.

As pessoas que se põem em contato com a Obra no Dubai costumam fazê-lo através da referência de amigos de seus países de origem. Outros chegaram por intermédio de amizades locais, de colegas de trabalho ou de encontros casuais. Com a ausência de uma sede e com horários e ritmos de vida tão diferentes, é difícil organizar atividades para que todos possam usufruir. No entanto, “todas as pessoas que participam desses encontros enriquecem-nos com a sua amizade e o seu interesse em assistir, apesar das dificuldades”, agradece Jackie Alcântara, que lá vive, é supranumerária e se encarrega de coordenar as atividades de formação de mulheres da região.


Um sonho feito realidade

Em 1933, S. Josemaria deu a bênção com o Santíssimo a três estudantes depois da primeira palestra de formação cristã. Anos depois, recordava: Pareceu-me que o Senhor Jesus, Nosso Deus, abençoava trezentos, trezentos mil, trinta milhões, três mil milhões..., brancos, negros, amarelos, de todas as cores, de todas as combinações que o amor humano pode fazer.

No passado sábado, na Paróquia de St. Francis of Assisi, em Jebel Ali (Dubai), o sacristão perguntou pela procedência dos assistentes à Missa, surpreendido porque está habituado a que cada nacionalidade esteja no seu grupo da paróquia, com a sua própria língua. “Aqui”, exclamou, sem saber que se fazia eco das palavras de S. Josemaria, “está toda a gente junta! Tantas cores!”.

Além disso, na semana passada o governo de UAE [1] convidou oficialmente o Papa Francisco a visitar os Emirados. A possível visita do Pontífice, que é muito sensível diante das pessoas das periferias do mundo, entusiasma especialmente os católicos do Dubai.


[1] http://www.thenational.ae/uae/government/pope-francis-invited-to-visit-the-uae