Os três sorrisos do cristão

Como ser capazes de sorrir quando as preocupações, o trabalho, os pequenos contratempos e as grandes dores são tão frequentes na vida?

Virtudes
Opus Dei - Os três sorrisos do cristão

“Um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral" [1]. A provocação do Papa Francisco não é uma brincadeira casual, e a ideia de que os cristãos não devem mostrar-se tristes não é nova: "Seria preciso entoarem melhores cânticos para eu crer no seu Salvador; seria preciso que os seus discípulos tivessem mais aparência de redimidos", dizia Nietzsche.

Mas como ser capazes de sorrir quando as preocupações, o trabalho, os pequenos contratempos e as grandes dores são tão frequentes na vida?

O primeiro sorriso é o fundamental: “Aquele, porém, que mora nos céus, se ri” [2] diz a Bíblia. E ainda: “a alegria do Senhor será a vossa força” [3]. É o sorriso de Deus. A alegria com a qual o Criador contempla cada uma de suas criaturas deve ser o fundamento sólido da serenidade e da paz de cada um de nós.

Mas não pode ser irreverente pensar que Deus, o Senhor do Universo, sorria? “Deus deve nos amar ainda mais porque despertamos seu humor.”, disse um personagem criado por Ray Bradbury. “Eu nunca pensei em Deus como um cômico”, lhe responde alguém. A resposta é imediata: “O Criador do ornitorrinco, do camelo, da avestruz e do homem? Ora, deixe disso”[4].

O segundo sorriso é aquele com o qual olho para mim mesmo. Sem perder de vista minha humanidade, meus limites, que não são necessariamente defeitos e não devem ser tomados demasiado a sério. Meu Criador me ama assim, como sou, porque se me quisesse diferente, teria me criado diferente.

"Saber ver o aspecto divertido da vida e a sua dimensão alegre e não viver tudo tão tragicamente – disse Bento XVI –, e diria que isto é necessário também no meu ministério. Um escritor disse que os anjos conseguem voar porque não se consideram a si mesmos com demasiada seriedade. E também nós talvez pudéssemos voar um pouco mais, se não déssemos tanta importância a nós mesmos” [5].

Sorrir é um ato de humildade, quer dizer que me aceito a mim mesmo e ao meu modo de ser, permanecendo ali onde estou com santa paz. Sem levar-me muito a sério, porque “A seriedade não é uma virtude. Seria uma heresia, mas uma heresia muito mais sensata, dizer que a seriedade é um vício. É na verdade um lapso ou tendência natural a levar-se muito a sério, porque é a coisa mais fácil de fazer. Pois a solenidade flui dos homens naturalmente; mas o riso é um salto. É fácil ser pesado, é difícil ser leve. Satanás caiu devido à força da gravidade” [6].

O terceiro sorriso é consequência dos dois anteriores. É o sorriso com o qual acolho as pessoas, especialmente aquelas com as quais convivo e trabalho. Mostrando-lhes afeto e sem dar muita importância a possíveis erros ou atritos. Com rosto alegre, Madre Teresa de Calcutá, ao receber o Premio Nobel surpreendeu o público ao fazer-lhes esta sugestão: “Sorriam uns aos outros, dediquem tempo para estar juntos com as suas famílias. Sorriam mutuamente” [7].

"As vestes do corpo, o riso dos dentes, e o modo de andar de um homem fazem-no revelar-se” [8], diz o livro da Sabedoria.

O sorriso pode ser verdadeiramente o sinal que permite aos demais reconhecer um cristão.

Artigo de Carlo de Marchi, Vigário do Opus Dei para o Centro-Sul da Itália.


[1] Papa Francisco. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n. 10.

[2] Salmo II, 4.

[3] Ne, 8,10.

[4] Ray Bradbury, As crônicas marcianas. Editora Globo, 2005.

[5] Bento XVI. Entrevista a representantes de canais televisivos alemães e da rádio vaticano em preparação para a viagem à Alemanha. 5-VIII-2006.

[6] G. K. Chesterton, Ortodoxia. Mundo Cristão, 2008.

[7] Madre Teresa de Calcutá. Discurso para o Prêmio Nobel da Paz, 1979.

[8] Sir 19, 27