Devemos manter a unidade

Este artigo, por meio do acidente que ocorreu com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, no ano de 1978, vem nos recordar a importância e o papel de cada cristão em buscar a plena unidade da Igreja.

Mensagens de N. S. Aparecida
Opus Dei - Devemos manter a unidade

No dia 16 de maio de 1978, ao cair da noite, poucas pessoas aguardavam o início da última Missa do dia, às 20h, no Santuário Nacional de Aparecida. Já havia terminado a fila de peregrinos que passaram diante da imagem de Nossa Senhora, durante aquele dia. Apenas um rapaz se postrara diante da imagem. O seu comportamento era estranho e notava-se que estava nervoso.

Já iniciada a Missa, às 20h10, a luz elétrica se apagou por um instante – fato que foi verificado em todo o Vale – e a Basílica ficou na penumbra. Foi a ocasião para que aquele rapaz irrequieto, Rogério Marcos de Oliveira, saltasse e com os punhos desse um golpe contra o vidro que protegia a imagem. Em um segundo salto, conseguiu quebrar o vidro triplo que se localizava a 2,20 m do chão e, em um terceiro salto, arrebatou a imagem. A coroa e a cabeça enroscaram-se no vidro, e acabaram caindo no altar, espatifando-se. Tudo aconteceu muito rápido.

O guarda da Basílica, João Batista dos Santos, avançou sobre o homem que realizara o violento atentado, o qual neste momento deixou cair a imagem[1].

O fato abalou a cidade de Aparecida do Norte e todo o Brasil. Passados os primeiros momentos de angústia e consternação, uma só era a expectativa de todos: seria possível a restauração da imagem despedaçada em centenas de fragmentos?

Incumbiu-se essa missão, quase irrealizável, à restauradora do Museu de Arte de São Paulo, Maria Helena Chartuni. Graças a Deus, pela habilidade das suas mãos de artista e pelo afeto do seu coração “a imagem voltou a sorrir compassiva”[2].

Para se recuperar a integridade da imagem de Nossa Senhora Aparecida teve-se o cuidado de recolher todos os cacos e de colá-los nas suas exatas posições. Nenhuma lasca ou mesmo um pequeno fragmento da imagem foram desprezados. Todos foram importantes para a restauração da plena unidade da imagem.

Como “a Mãe de Deus é o modelo e a figura da Igreja”[3], a recuperação da integridade da imagem de Aparecida não estaria nos recordando a necessidade de sempre buscarmos a plena unidade da Igreja?

Aplicam-se à imagem restaurada de Nossa Senhora Aparecida as mesmas palavras de São Paulo sobre a Igreja: “o corpo é um todo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo” (I Cor 12,12).

É evidente que o corpo humano se compõe de uma diversidade de órgãos e de membros, cada um com a sua função própria sob o governo da cabeça, para o bem de todo o organismo. Assim também ocorre na Igreja: “existe uma variedade, uma diversidade de tarefas e de funções; não existe a uniformidade plana, mas a riqueza dos dons que o Espírito Santo distribui. Mas existe a comunhão e a unidade: todos estão em relação uns com os outros e todos concorrem para formar um único corpo vital, profundamente unido a Cristo[4].

“Ninguém é inútil na Igreja […]. Ninguém é secundário”[5].

A união com Cristo, Cabeça invisível da Igreja, tem de manifestar-se necessariamente na forte união com a Cabeça visível, o Romano Pontífice, e com os Bispos em comunhão com a Sé Apostólica. E nós devemos rezar a cada dia pela unidade de todos cristãos na Igreja.

São Paulo nos admoesta: “não haja dissensões no corpo e que os membros tenham o mesmo cuidado uns para com os outros. Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é tratado com carinho, todos os outros se congratulam por ele” (I Cor 12,26).

O Papa Francisco nos esclarece ainda mais: Antes de mais nada, o corpo remete-nos a uma realidade viva. A Igreja não é uma associação assistencial, cultural ou política, mas é um corpo vivente, que caminha e age na história. E este corpo tem uma cabeça, Jesus, que o guia, o nutre e o sustenta […]. Da mesma forma que num corpo é importante que circule a linfa vital para que viva, assim devemos permitir que Jesus aja em nós, que a sua Palavra nos guie, que a sua presença eucarística nos nutra, nos anime; que o seu amor dê força ao nosso amor ao próximo. E isto sempre! Sempre, sempre! Caros irmãos e irmãs – insistia o Santo Padre –, permaneçamos unidos a Jesus, fixemo-nos nEle, orientemos a nossa vida de acordo com o seu Evangelho, alimentemo-nos com a oração diária, com a escuta da Palavra de Deus, com a participação nos sacramentos” [6].

Se a unidade deve existir na Igreja como há em um corpo vivo, deve também existir na vida de cada cristão, que também é um dos seus membros. Recordamos que na imagem despedaçada de Nossa Senhora Aparecida, somente as suas mãos ficaram intactas, todos os demais membros tiveram que ser reconstituídos.

O cristão deve ser um homem íntegro, em todos os campos da sua vida. Ou para usar uma antiga expressão popular: deve ser “um homem de uma só peça”. Deve buscar a coesão entre todos os aspectos de sua vida, que se harmonizem e se integrem em uma perfeita unidade[7]: a vida de piedade, também denominada vida interior; os critérios éticos e morais no âmbito profissional, os deveres familiares; os diversos detalhes da vida cotidiana, como o descanso e o lazer; a vida social, a cultura e a moda; a fraternidade e o apostolado. Ou seja, a vida diária de um cristão, em todos os lugares, momentos e circunstâncias, deve ser a de um filho de Deus, que cumpre a vontade de seu Pai Deus e vive os ensinamentos de Cristo e da Igreja.

Há várias exigências para se tornar um cristão autêntico e coerente. Mencionamos algumas: buscar a glória de Deus e viver na sua presença; realizar um trabalho santificado, com competência e ética profissional; viver a caridade com todas as pessoas com quem se convive; esforçar-se por adquirir as virtudes ou qualidades cristãs; saber descansar e se divertir de forma cristã. Se algum desses elementos não é vivido, a vida cristã se rompe, se desintegra, desfaz-se a sua unidade.

Recorramos à Nossa Senhora Aparecida pedindo pela unidade dos cristãos, entre si e nas suas próprias vidas, para que alcancemos a integridade, inspirando-nos no exemplo da sua imagem reconstituída.



[1] Rogério livrando-se do guarda, saiu correndo. Mas os policiais o alcançaram, de carro, e o conduziram primeiro à Santa Casa local, devido aos vários cortes no braço, e depois à cadeia. Soube-se que o furor iconoclasta do rapaz já vinha de longe, e que já havia tentado quebrar por duas vezes uma imagem de São José em outra igreja.

[2] O trabalho e restauro da imagem foi iniciado na manhã do dia 29 de junho e concluído no dia 31 de julho.

[3] Cfr. Const. Lumen Gentium, n.63.

[4] Papa Francisco, Discurso na audiência geral, 19-6-2013.

[5] Papa Francisco, Discurso na audiência geral, 26-6-2013.

[6] Papa Francisco, Discurso na audiência geral, 19-6-2013.

[7] Esta unidade na vida de cada cristão era denominada por São Josemaria Escrivá de “unidade de vida”.