"Deus tem algo de avô"

Eliana Palma é uma avó chilena que nos transmite nesta entrevista a sua visão sobre o papel que os avós têm nas famílias e na sociedade.

Testemunhos
Opus Dei - "Deus tem algo de avô" Eliana sobre os seus netos: "Penso que uma das principais coisas que os atraiu foi ver-nos sempre disponíveis para o que quisessem perguntar-nos ou dizer-nos."

1) Como os avós podem ser misericordiosos? Contando com a experiência dos anos, que papel a misericórdia desempenha na vida de uma pessoa?

Como é lógico, nós, os avós temos uma certa vantagem em relação aos jovens: já vimos muitas coisas na vida e talvez por isso a olhamos com outros olhos. Quando somos jovens queremos que tudo saia bem à primeira vez. Somos muito amigos da perfeição, quer dizer, do perfeccionismo. Mas a vida vai mostrando que isso nem sempre é possível. E que as derrotas quase sempre são mais frequentes do que as vitórias. Afinal, quando temos uma certa idade, compreendemos a importância de ter alguém perto, que nos apoie. E isto são os avós na vida das pessoas. Uma casa com as portas abertas. É um pouco assim, as pessoas quase sempre se lembram dos avós nos momentos difíceis. Parece que essa é uma parte da sua missão. Apoiar nessas situações. No fundo, ser avô é ser misericordioso. É mais fácil para nós fechar os olhos aos defeitos dos nossos filhos e netos para ver as coisas boas que têm. É um dom que Deus nos dá quando passam os anos.

E isto são os avós na vida das pessoas. Uma casa com as portas abertas.

Gosto de pensar que Deus também olha para nós. Tem algo de avô. A sua misericórdia é assim, é o que nos mantém de pé. Deus também é a casa de portas abertas. Como dos avós, muitos se lembram d’Ele nos momentos duros da vida. E aí está sempre esperando para acompanhar e animar a continuar a caminhar.

Mas diante de Deus todos somos crianças. Os avós também. Por muito que tenhamos anos de experiência e tenhamos visto de tudo, Deus sempre viu mais. E é bonito saber que, em qualquer momento da vida, Deus sempre está à sua espera de braços abertos.

Gosto de pensar que Deus tem algo de avô. A sua misericórdia é assim, é o que nos mantém de pé. Deus é uma casa de portas abertas.

2) Eliana, conta-nos um pouco sobre ti

Nasci numa pequena cidade no centro do Chile, Limache, numa família em que sou a quarta de cinco filhos. Tive uma infância muito feliz, bastante simples, junto aos meus pais e irmãos. No ano passado faleceram dois deles com uma diferença duma semana. A minha irmã mais nova faleceu também há vários anos. Agora só ficamos a minha irmã mais velha que está muito doente e eu.

3) Você esteve casada durante 61 anos. Como foi possível esta fidelidade e constância no casamento?

Sim, o Tito e eu chegamos a estar casados e juntos na terra durante 60 anos. Ele faleceu no 21 de Outubro do ano 2015. Estava doente há 8 anos.

Fotografia do casamento entre Eliana e Tito

O meu marido foi um homem muito bom. O amor da minha vida. Era um homem nobre com muitas virtudes. Passei a vida aprendendo dele, e isso fez-me muitíssimo bem. Admirei-o sempre e cada dia mais. E isto durante todos os anos em que esteve bem de saúde e também durante esses anos de doença em que esteve muito limitado.

Nunca pus em causa a fidelidade no casamento. Não era um tema. Para mim era algo óbvio, foi o que vi nos meus pais e ele nos dele. Tito amou-me muitíssimo e dizia-o sempre. E agradeço-lhe por isso. Sabíamos que devíamos fazer-nos felizes um ao outro, nas pequenas e nas grandes coisas. Era assim o nosso casamento. E isso era o que também desejávamos transmitir aos nossos filhos e netos.

Por vezes, quando ouço falar de tantas separações, penso que somos da época em que o que se rompia se consertava e não se descartava como se faz hoje. Consertar as vezes que for necessário, mas nem pensar em jogar fora. Creio que ter isto em mente ajuda muito.

4) Você tem filhos e netos, alguns deles moraram com você, na mesma casa, durante vários anos. Como foi essa experiência? Que papel os avós desempenham nesta situação?

Temos quatro filhos e quinze netos. Em 1994, por circunstâncias da vida, chegou a viver na nossa casa a família da minha filha, com seis filhos. O mais velho com 12 anos e o mais novo, recém-nascido. O Tito e eu dedicamo-nos intensamente a esses seis netos. Vimos sempre esta situação tão especial como vinda de Deus. Sem dúvida nenhuma, Ele dava-nos a fortaleza. Nunca nos sentimos cansados. Pensamos que estávamos desempenhando um papel importante nessa situação.

Uma fotografia da família de Eliana, com Tito, já doente.

Os netos agora já estão mais velhos. O mais velho tem 34 anos e o mais novo 22. E parece que agora os papéis começam a inverter-se, porque eles foram um grande apoio tanto para o meu marido como para mim. Entre eles há um sacerdote. Assim tão generoso é Deus!

Ficaram-me muito gravadas umas palavras do Papa numa das suas catequeses sobre a família: “um povo que não respeita os avós, não tem futuro, porque não tem memória, perdeu a memória”

Sempre fomos desses avós que respeitam totalmente a liberdade tanto dos nossos filhos como dos nossos netos. Deus estava sempre presente, mas entrava nas nossas vidas mais pelo ambiente do que pelas palavras. Também o digo no sentido de que nunca impusemos datas ou dias em que “devíamos” nos reunir. Isso devia nascer de “querer fazê-lo”. Penso que os avós, quando são tomados em consideração, quando se lhes mostra carinho e preocupação, podem deixar um impacto muito bom nos netos. Por isso me dá pena ver netos que não ligam para os avós. E pais que não aproximam as gerações. Graças a Deus, a nossa experiência foi justamente o contrário.

5) Na catequese sobre a família, o Papa Francisco disse que as palavras dos avós têm algo de especial para os jovens. Que pensa disto? Qual foi a sua experiência com os netos? Qual é a responsabilidade dos avós neste sentido?

É assim. De fato, ficaram-me muito gravadas umas palavras do Papa numa das suas catequeses sobre a família: “um povo que não respeita os avós, não tem futuro, porque não tem memória, perdeu a memória”. Exclui-los é como rejeitar o passado. Dói ver como muitas vezes são considerados como uma carga. Recordo-me de quando os meus avós nos contavam histórias das suas vidas. Com que atenção os escutávamos! Então não imaginávamos o bem que isso nos traria e o exemplo que nos estavam dando.

Entre tantas recordações, tenho uma de um neto, hoje médico, que sendo muito pequeno, se sentava no chão na frente do meu marido e lhe dizia muito sério, olhando-o nos olhos: “Vovô, conversamos?”. Aí se notava claramente como o atraíam as suas palavras. Falar com o avô não era nenhum aborrecimento nem sequer uma obrigação. Depois, já mais velhos, víamos os seus interesses em querer saber a nossa opinião sobre livros, flores, história, maquinaria, atualidade, a cidade, o país e um longo etc. Penso que uma das principais coisas que os atraiu foi ver-nos sempre disponíveis para o que quisessem perguntar-nos ou dizer-nos. É preciso evitar a figura de avô ou avó sem tempo, sem gosto ou forças para estar com os netos. Também tenho de dizer que nós aprendemos muitíssimo com eles. E que a sua vontade era talvez igual à nossa de estar com eles.

Aos pais a quem ainda lhes custa perceber que os avós podem ser uma ajuda quando se pede, diria que enquanto os seus pais tiverem boa saúde, e sempre, não deixem de os aproximar dos seus filhos.

6) Dissemos que os anos e a experiência da vida são uma vantagem. Envelhecer também tem desafios e dificuldades. Na sua opinião o que é mais difícil e como o supera?

Sempre vi o envelhecer como algo muito normal, como algo que mais tarde ou mais cedo também nos acontece. A vida passa extraordinariamente depressa e é importante seguir em frente com muita esperança.

Penso que o mais difícil enfrentar foi a doença irreversível do Tito e depois a sua morte. Embora eu própria me surpreenda ao ver como essa grande quantidade de boas recordações que deixou tem me facilitado grandemente seguir em frente. O meu marido era 11 anos mais velho do que eu. Quando adoeceu, que foi algo muito repentino, tivemos oportunidade de ir vendo com os meus filhos e netos, como se ia desgastando e como isso ia fazendo crescer o nosso coração. Íamos sentindo mais e mais ternura por ele, que foi uma pessoa que sempre nos protegeu. Agora nós o protegíamos. Queríamos tratar dele, mimá-lo mais e mais. Tê-lo tido conosco 8 anos doente foi para todos um grande dom, uma grande bênção. É uma página indelével na história da nossa família. Algo de sofrimento e de dor, mas num quadro de muita alegria e unidade.

Tito e Eliana

7) Que conselhos darias a um casal recém-casado que está começando a formar uma família?

A esses casais diria que o casamento é um caminho maravilhoso. Um caminho para percorrer juntos. É bom serem realistas e saberem que o casamento “cor-de-rosa” não existe. Às vezes idealizamos demais as coisas. Mas sim, é possível lutar para ir convertendo este caminho em algo muito belo e "entusiasmante".

Muitas vezes há desencontros, mas é natural e se existe boa vontade, acabam amando-se ainda mais. É má ideia pensar que uma dificuldade é logo motivo para pensar na separação. Ou para se assustar. Diria também que a confiança e o respeito são fundamentais. E isso significa tratar-se bem, de palavra e de ação. Outra coisa é aprender a perdoar, também nas tolices de cada dia, que às vezes são as mais difíceis. É absurdo discutir para resolver “quem tem razão”. Essa mentalidade envenena o casamento. Pensar no futuro, sonhar juntos. Querer envelhecer juntos. Isto produz uma grande felicidade.

O caminho do casamento para aqueles que o percorremos e para os que começam a fazê-lo, é maravilhoso. Vale a pena desgastar-se para o levar adiante.

Para nós, e penso que para todos, é muito importante que Deus seja o centro da família. Recorrer a Ele, agradecer-Lhe tudo. Agradecer-Lhe todos os dias que me tenha dado o meu marido, a minha mulher. Rezar e sofrer juntos é das coisas que mais unem. Deus no centro é o que mais une. O caminho do casamento para aqueles que o percorremos e para os que começam a fazê-lo, é maravilhoso. Vale a pena desgastar-se para o levar adiante.