8. Depois da guerra: recomeçar

Acabada a travessia dos Pirineus, depois de uma breve estada em Pamplona, estabeleceu-se em Burgos. Daí, no meio de grande penúria, num país devastado, multiplicou-se num apostolado intenso.

Biografia
Opus Dei - 8. Depois da guerra: recomeçar São Josemaria ante os escombros da academia DYA

Em Burgos, alugou um quarto num hotel modesto. De aí, no meio de grande penúria no aspecto material, multiplicou-se num apostolado intenso, e empregou os meios para entrar de novo em contacto com as pessoas que conhecera em Madri, dispersas em consequência do conflito. Muitos tinham sido mobilizados por um ou por outro dos exércitos em guerra. Fez longas viagens, apesar das carências econômicas, num país devastado, com muitas pontes destruídas e vias de comunicação fortemente danificadas.

Alguns viajavam até Burgos para encontrar-se com ele, aproveitando as licenças militares, que eram breves. São Josemaria reconfortava-os, abrindo-lhes horizontes amplos: “Tinha o costume de sair a passear pela margem do Arlanzón, enquanto conversava com eles, ouvia as suas confidências e procurava orientá-los com o conselho oportuno que os confirmasse ou lhes abrisse horizontes novos de vida interior. E, sempre com a ajuda de Deus, animava-os, estimulava-os e abrasava-os na sua conduta de cristãos. Às vezes as nossas caminhadas chegavam ao mosteiro de Las Huelgas. E noutras ocasiões íamos até à catedral.

Gostava de subir a uma torre para que vissem de perto a pedra trabalhada dos pináculos, um autêntico rendilhado de pedra, fruto de um labor paciente e custoso. Nessas conversas fazia-lhes notar que aquela maravilha não se via de baixo. E para concretizar o que lhes tinha explicado com repetida frequência, comentava: isto é trabalho de Deus, a obra de Deus: acabar a tarefa pessoal com perfeição, com beleza, com o primor destas delicadas rendas de pedra”.

Apóstolo de apóstolos

Fazia-os sonhar com o fecundo serviço à Igreja que o Opus Dei prestaria, na altura em que o Senhor os espalhasse pelos cinco continentes. Pensava já em determinadas pessoas para começar noutros países. “Fazíamos tu eu a nossa oração, quando caía a tarde. Perto, ouvia-se o rumor da água. E na quietude da cidade provinciana, ouvíamos também vozes diferentes que falavam cem línguas, gritando-nos angustiosamente que ainda não conhecem Cristo. Beijaste o crucifixo sem te recatares, e pediste-lhe que te fizesse apóstolo de apóstolos”.

Fez viagens para falar da Obra a muitos bispos, e de todos recebeu estima e ânimo. Entretanto, recolhia objetos litúrgicos e tudo quanto pudesse servir para recomeçar o trabalho em Madri logo que possível. E pedia sobretudo livros, consciente de que era preciso levar Cristo aos vários campos do saber, da arte e da cultura.

Tese, viagens, correspondência

Pregava com o exemplo. Tinha perdido, pelas vicissitudes da guerra, todo o material que preparara para a tese de doutoramento. Contudo, não desanimou: deu início a uma nova tese, com um tema diferente. Ao mesmo tempo, mantinha uma assídua correspondência com as pessoas do Opus Dei, com os que tinham participado nos seus apostolados, com amigos e conhecidos. Cartas cheias de esperança cristã, em que transmitia o seu otimismo e o afeto paternal. Mas até quando duraria aquela espera? São Josemaria acompanhava-a com mortificações e penitências muito severas, com jejuns, e com a decisão de abandonar em Nosso Senhor todas as preocupações econômicas. Os magros ingressos que entre todos podiam reunir não chegavam nem sequer para sobreviver.

De novo em Madri

São Josemaria com alguns universitários que frequentavam a residência

Finalmente, conseguiu regressar a Madri no dia 28 de Março de 1939. Descobriu que a residência DYA, que tantos sacrifícios lhe havia custado, estava totalmente em ruínas. Comovido, apanhou dos escombros um quadro salvo das pilhagens e dos bombardeamentos, em que mandara escrever as palavras do mandamento novo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

Recomeçou, com esperança e espírito de sacrifício, uma nova residência. Mudou-se para lá com a mãe e os irmãos. Dona Dolores e Carmen Escrivá ocuparam-se da administração domésticas, e a elas se deve, em boa parte, o tom familiar, de lar, que têm os centros do Opus Dei. Em Junho pregou um retiro para estudantes nos arredores de Valência, do qual resultou um grande impulso no desenvolvimento da Obra naquela cidade. E em Valência, no mês de Setembro, foi editado Caminho. Foram chegando muitas pessoas que desejavam entregar-se a Deus por inteiro no Opus Dei: vivendo a sua vocação cristã no âmbito familiar ou no celibato apostólico. Veio em seguida a expansão por outras cidades espanholas. O seu desejo era começar quanto antes em novos países, mas a difícil situação europeia, presságio da Segunda Guerra Mundial, de novo o obrigou a atrasar a expansão apostólica.