A verdadeira face do Opus Dei

O Prelado do Opus Dei, D. Javier Echevarría, em entrevista a um jornal polonês, fala da natureza e do espírito do Opus Dei, da resposta moderada que foi dada ao livro “O Código da Vinci” e dos planos para o 80º aniversário da Prelazia.

Entrevistas

Wlodzimierz Redzioch : - V. Exa. Revma. preside uma organização da Igreja Católica que tem atraído a atenção dos media em todo o mundo. Infelizmente alguns desses meios de comunicação apresentam uma visão deformada da instituição. Poderia dizer-nos o que é o Opus Dei?

D. Javier Echevarría: - São Josemaria Escrivá repetia muitas vezes que o Opus Dei é “o caminho de Deus para os cristãos que querem viver como verdadeiros cristãos.” O objetivo dos membros do Opus Dei não é fazer coisas espetaculares. São cristãos correntes que tentam chegar à santidade nas suas vidas diárias. Uma vez que a Prelazia, que é uma instituição da Igreja, inclui sacerdotes e leigos, isto é, gente comum, sentimo-nos à vontade no mundo, no meio da gente, no trabalho, nas nossas famílias… Eu diria mesmo mais, não só nos sentimos bem no mundo, mas amamos o mundo, amamos a vida quotidiana com as suas mil obrigações e tarefas. Não se pode ser cristão só na igreja, é preciso ser cristão nas ocupações correntes e prosaicas da vida quotidiana. É preciso levar uma vida de fé em Deus, de esperança e amor por todos – como fizeram os primeiros cristãos – e, então, cada dia se torna um dia santo. Esta idéia da “grandeza” da vida diária é o núcleo central da mensagem de São Josemaria, um ideal que, graças a Deus, é compartilhado por muita gente, mesmo pelos que não pertencem ao Opus Dei.

Quanto ao interesse dos media na Prelazia, julgo que resulta do fato de haver tantas pessoas que, através do Opus Dei, se apaixonaram pela descoberta do sentido transcendente da realidade em que se insere a nossa vida. Numa palavra, trata-se de alguma coisa que ainda “atrai” as pessoas para o Cristianismo, como Bento XVI tem sublinhado em várias ocasiões.

W. Redzioch: O Opus Dei costuma ser conhecido como prelazia pessoal. Sabemos bem o que são as congregações religiosas ou os institutos de vida consagrada, mas a maioria dos católicos não tem a mínima idéia do que possa significar “prelazia pessoal”. Pode explicar-nos este termo?

D. Javier Echevarría: Uma prelazia pessoal é diferente duma congregação religiosa e dum instituto de vida consagrada. É uma estrutura da Igreja Católica à qual podem pertencer tanto sacerdotes como leigos, e que é presidida por um prelado…

W. Redzioch: Então podemos dizer que esta estrutura é semelhante a uma diocese com fiéis em todo o mundo…

D. Javier Echevarría: De fato não, porque uma prelazia não pretende ser uma Igreja particular. W. Redzioch : Será talvez melhor compará-la um ordinariato castrense?

D. Javier Echevarría: Essa comparação é, sem dúvida, melhor.

W. Redzioch: Trabalhou muitos anos junto do fundador do Opus Dei. Que recordações tem de São Josemaria?

D. Javier Echevarría: É claro que me lembro de muitas coisas, mas o que mais me impressionou em São Josemaria foi a sua alegria, a sua fidelidade à Igreja e o seu amor a todas as pessoas. Sempre que tenho de atuar procuro imaginar o que faria São Josemaria numa situação determinada. Ele foi capaz de criar, a partir do nada, esta maravilhosa realidade no seio da Igreja, estendida por todo o mundo, que é hoje o Opus Dei – não só os leigos e sacerdotes que pertencem à Prelazia, mas também os milhões de pessoas que com ela cooperam. É verdade que a Prelazia não existiria sem a ação da graça de Deus, mas tampouco seria possível sem a resposta de uma pessoa – São Josemaria – ao chamamento de Deus.

W. Redzioch: São Josemaria reuniu grande parte dos seus ensinamentos espirituais num livro chamado “Caminho”, que é um verdadeiro guia espiritual para os membros do Opus Dei. Como essa espiritualidade pode ser descrita?

D. Javier Echevarría: Um importante aspecto da vida diária que mencionei antes é, sem dúvida, o trabalho de cada um. Além de estimular a oração habitual e uma sólida vida sacramental, o espírito do Opus Dei centra-se no trabalho que, se desempenhado conscienciosamente e visto como oferta a Deus e serviço ao próximo, pode tornar-se meio de santificação e encontro com Cristo. No livro que mencionou, São Josemaria escreve: “Para um apóstolo moderno, uma hora de estudo é uma hora de oração.” Outro aspecto da espiritualidade do Opus Dei é a consciência da filiação divina de cada cristão. Deus é Pai, nosso Pai, e este fato, se plenamente entendido, muda radicalmente tudo; faz-nos encarar todos os desafios da vida quotidiana dum modo positivo. E também tenho de mencionar a liberdade, que ocupa um lugar de relevo na mensagem de São Josemaria uma vez que se nos apresenta como estímulo de um compromisso cristão ao mesmo tempo em que é inseparável da responsabilidade pessoal.

W. Redzioch: Que tipo de relacionamento tiveram os Papas João XXIII, Paulo VI e João Paulo II com o Opus Dei?

D. Javier Echevarría: O relacionamento entre o Opus Dei e os Papas que citou foi íntimo e profundo. É claro que também temos de mencionar Pio XII, João Paulo I e Bento XVI. Pelo que se refere a João Paulo II posso dizer que foi como um pai para o Opus Dei. Foi o Papa que erigiu o Opus Dei como Prelazia Pessoal em 1982, depois de anos de preparação, iniciada durante o Concílio Vaticano II e desenvolvida ao mesmo tempo em que se preparava o novo Código de Direito Canônico. Foi também João Paulo II que canonizou São Josemaria em 2002, designando-o como “o santo da vida quotidiana”. Particularmente, impressionou-me profundamente um gesto de João Paulo II: ao falecer o meu antecessor, D. Álvaro del Portillo, veio pessoalmente à igreja da prelazia para rezar perante os restos mortais do falecido. Anteriormente, em 1984, João Paulo II havia oferecido a D. Álvaro uma reprodução da imagem de Nossa Senhora de Czestochowa. Hoje esta imagem ocupa um lugar de honra na sede da Prelazia em Roma. Cada vez que a olho sinto-me unido a todos os católicos da Polônia. E também me recorda as minhas numerosas peregrinações a Czestochowa. A primeira foi com D. Álvaro del Portillo, em 1979, e a última que fiz, enquanto prelado do Opus Dei, foi na festa de Nossa Senhora de Jasna Gora, em 26 de agosto de 2005. Estou convencido de que João Paulo II deu muito ao mundo e à Igreja. E sem qualquer dúvida deu muitíssimo ao Opus Dei, graças à sua paternidade espiritual.

W. Redzioch: Para muita gente foi uma surpresa que a resposta da Prelazia às calúnias do livro de Dan Brown, ainda que inequívoca, foi também contida: não moveram um processo contra ele nem procuraram ser indenizados. Porque é que a Prelazia reagiu deste modo?

D. Javier Echevarría: Gostaria de salientar que o mais infeliz aspecto do livro de Dan Brown não é o que ele diz sobre o Opus Dei, mas sim a falsa imagem de Cristo e da sua Igreja que ele apresenta aos seus leitores. O Opus Dei, que é parte da Igreja, é uma realidade jovem, vibrante e bela. As invenções de um escritor podem manchar esta beleza e isto nos deixa tristes. No entanto, compreendemos que a beleza da Igreja, que inclui o Opus Dei, se revela na sua plenitude quando mostramos o amor de Cristo e não nos rendemos aos sentimentos feridos. Nesta perspectiva, o amor é a melhor maneira de apresentar a figura de Jesus Cristo e a realidade da Igreja. Deste modo a nossa reação decidida, mas também delicada, foi uma manifestação do nosso sentido de responsabilidade. Não esqueçamos que o amor é mandamento de Cristo, o mais importante dos seus mandamentos.

E repito mais uma vez: o que é mais doloroso em O Código da Vinci é o modo como o autor tenta banalizar a Pessoa de Cristo. É bom ver que o novo livro do Papa Bento XVI firmou, no centro do diálogo cultural, a realidade histórica – humana e divina – de Jesus Cristo. É uma maravilhosa oportunidade para que os cristãos e todas as pessoas cheguem a conhecer Jesus e aprofundem a sua relação com o Filho de Deus que se fez homem.

W. Redzioch: O octogésimo aniversário do Opus Dei ocorre no próximo ano. Como estão se preparando para este acontecimento?

D. Javier Echevarría: Antes de tudo, cada um de nós se prepara através de uma conversão pessoal. Temos de perguntar-nos, diante de Deus, como estamos servindo a Igreja, o Papa e os outros?

Pelo que diz respeito à Prelazia, será uma oportunidade para explicar o que é o Opus Dei. Neste momento, quando os 80 anos se aproximam, o Opus Dei está iniciando o seu trabalho na Rússia e, em breve, estaremos presentes também na Romênia.

A entrevista foi publicada em 29/07/2007.

  • Tygodnik Katolicki “Niedzela” (Semanário dominical católico), Czestochowa, Polônia