Um artigo sobre o significado da canonização de Josemaria Escrivá

"O reconhecimento de sua vida exemplar é de especial relevância, na medida em que se confirma oficialmente a sua mensagem de buscar a santidade no meio do mundo e através do trabalho cotidiano, ou seja, que é possível viver a plenitude do cristianismo no exercício de toda e qualquer profissão, intelectual ou manual, por pessoas casadas ou solteiras".

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Qual é o significado de uma canonização? É uma pergunta que se faz num dia como hoje, em que o Papa João Paulo II canoniza, em Roma, Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Dei. Quando a Igreja canoniza uma pessoa, incluindo-a no elenco dos santos, indica basicamente que ela serve de intercessora diante de Deus e é modelo de conduta para todos os fiéis.

No caso de Mons. Escrivá, agora São Josemaría Escrivá, o reconhecimento de sua vida exemplar é de especial relevância, na medida em que se confirma oficialmente a sua mensagem de buscar a santidade no meio do mundo e através do trabalho cotidiano, ou seja, que é possível viver a plenitude do cristianismo no exercício de toda e qualquer profissão, intelectual ou manual, por pessoas casadas ou solteiras. Efetivamente, essa foi a sua pregação desde 1928, quando, por inspiração divina, fundou o Opus Dei, Prelazia Pessoal da Igreja Católica.

Mas não seria anacrônico falar em santidade nos dias de hoje? Daria para conceber imagens de santos, publicamente veneradas, vestindo uniforme branco de médico, toga de promotor, distintivo de enfermeira, quepe de militar, capacete de operário, pasta de executivo, avental de dona-de-casa ou raquete de tenista? É justamente essa possibilidade que se viu aberta com a canonização de Mons. Escrivá. Trata-se de reconhecer que a santidade não é um ideal inatingível ou desarrazoado, mas a meta natural de todo cristão, quando busca ser coerente com a sua fé.

E o que é ser santo? Deixemos que o próprio São Josemaría Escrivá responda: “Para a grande maioria dos homens, ser santo significa santificar o seu trabalho, santificar-se no trabalho e santificar os outros com o trabalho, e assim encontrar Deus no caminho da vida.” (“Questões Atuais do Cristianismo”, n. 55).

Como profissional das leis e da justiça, desperta-me o interesse analisar o processo de canonização, autêntico monumento de sabedoria jurídica que a Igreja mantém e aperfeiçoa ao longo dos séculos. Nesse processo, a “petição inicial” recolhe a vida do “candidato”, as ocorrências e os fatos que demonstrem que viveu cada uma das virtudes em sumo grau. Além disso, examinam-se acuradamente os seus escritos para ver se não há nenhuma incongruência com a doutrina cristã.

Porém, só os livros não bastam como prova da santidade, pois o papel, como se diz, aceita tudo, e não basta escrever coisas belas, se não são vividas. No caso de Josemaría Escrivá, seu livro “Caminho”, um autêntico best-seller espiritual, foi inteiramente plasmado em sua vida. Não se limitou a escrever, como ele mesmo dizia (“Chamo-me Escrivá e escrevo muito”), mas a pôr em prática o que pregava, tornando a sua vida, alegre e generosa, um atraente modelo a ser seguido.

Uma vez terminada a instrução do processo, resta o mais importante, a sentença. Para canonizar uma pessoa, é preciso demonstrar que, pela sua intercessão, foram conseguidas graças que não se explicam pelas leis naturais. Uma cura inexplicável para a medicina, por exemplo. Afinal, “santo que não faz milagre não é santo”, diz o ditado popular. E a Igreja o confirma.

A São Josemaría Escrivá foi atribuída a cura milagrosa da grave radiodermite crônica no dorso das mãos e nos dedos de um médico ortopedista. Este foi o milagre que possibilitou a sua canonização. Além disso, o novo santo sempre foi pródigo em atender os pedidos dos que recorrem à sua ajuda, daí porque se conhecem inúmeros outros milagres, perfeitamente documentados, que são atribuídos à sua intercessão.

Mas, em vida, Mons. Escrivá fugia do extraordinário. Insistia em que a realização do cristão se plasma nos afazeres de cada dia. Devemos “transformar a prosa diária em decassílabos de verso heróico”. Seu conselho para atingir esse ideal de plenitude cristã era simples: “Queres de verdade ser santo? Cumpre o pequeno dever de cada momento: faz o que deves e está no que fazes” (Caminho, n. 815). Um conselho de fato simples, mas de uma sabedoria impressionante.

Com efeito, o que Deus espera de cada um é o cumprimento acabado de seus deveres profissionais, familiares e sociais. E, nas palavras profundas de Guimarães Rosa, “para cada dia e cada hora só há uma ação possível de ser a certa”. Corresponde a cada homem descobrir essa ação que é a “certa” para Deus, colocando nela todos os sentidos, sem estéreis saudosismos de passado nem sonhos vazios de futuro.

Portanto, o que a canonização de Mons. Escrivá deixa claro é que o ideal de santificação no meio do mundo, e através das atividades corriqueiras do dia-a-dia, não é uma utopia, mas caminho normal para a maioria dos cristãos, homens e mulheres, solteiros, casados ou viúvos, dedicados a profissões intelectuais ou manuais, ricos ou pobres. A todos Deus chama a esse ideal. E o que São Josemaría Escrivá fez, ao fundar o Opus Dei, foi ensinar o know-how, o como fazer para encontrar a Deus no trabalho profissional e manter com Ele um diálogo contínuo, que torne cada cristão um “semeador de paz e de alegria” no ambiente em que se encontra. Oxalá os efeitos deste dia se espraiem pelo tempo e pelo espaço, ajudando todos os homens a fazer essa descoberta: o dever diário é o seu caminho para chegar a Deus e servir ao próximo.

José Bonifácio Borges de Andrada é Advogado-Geral da União.

  • José Bonifácio Borges de Andrada // Correio Braziliense