
No Chade, “todos, muçulmanos e cristãos, rezam muito”
Mons. Rubén Darío Ruiz é argentino, sacerdote diocesano e diplomata do Vaticano. Enviado pela Santa Sé, vive atualmente na República do Chade, no centro do continente africano. Conta-nos, na primeira pessoa, as suas experiências.
24 de setembro de 2011
Localização do Chade na África
A residência por enquanto é precária. O pessoal e os meios de que se dispõe são escassos. Mas, como bem sabemos, a nossa força não está nos meios, mas em Deus. Sabemos que se requer paciência, sobretudo até se poder contar com as condições necessárias, mas para isso me enviaram: para começar.
Vivo na cidade de N’Djaména, que em árabe do Chade significa: «lugar de descanso». É a capital do Chade e situa-se no Sahel, a faixa de territórios que compõem a área de transição entre o deserto do Sahara e a savana africana.
Um país de realidades contrastantes
A Igreja Católica aqui é muito jovem, tem pouco mais de 70 anos, não para de crescer e tem vários milhares de catecúmenos.
O país é extremamente interessante e de realidades contrastantes; temos areia em abundância e ao mesmo tempo áreas verdes fantásticas; pobreza e petróleo; muçulmanos, cristãos e animistas; tribunais tradicionais (forma de administração da justiça anterior à colonização) e tribunais de tipo ocidental; sultões e chefes de tribos; dois idiomas oficiais e mais de 100 línguas locais; um passado (inclusive muito recente) cheio de guerras fratricidas e um presente bastante calmo; escolas católicas, corânicas e do Estado juntamente com antigos ritos de iniciação; folclore, etnias e culturas muito distintas distribuídas numa população de apenas 11.275.000 de pessoas.Há umas semanas, assisti a uma conferência-debate num centro católico de diálogo inter-religioso. O curioso era que, na realidade, 95% dos assistentes eram muçulmanos. Todos se mostravam muito interessados no tema tratado e participavam com as suas perguntas e comentários.
Como não podia ficar sozinho na sala – como pagão que não sabe orar – fui por minha conta rezar o terço e regressei quando a maioria o fez. Pensei, então, um tanto surpreendido: «Vê-se que têm um “plano de vida” e o cumprem com absoluta naturalidade» e recordei-me das palavras claras de São Josemaria: «Cumprirás este plano [de vida interior], filho, se não deixas por nada!, os teus tempos de oração» (Forja 737).
Uma ajuda aberta a todas as pessoas
A diversidade linguística [...] complica bastante a tarefa de evangelização. Conheci paróquias em que há sete línguas extremamente diferentes.
As manhãs são muito longas e produtivas. Recebo diariamente a inesperada ajuda gratuita do muezzin da mesquita vizinha, que, às 4h45 entoa no minarete a primeira adhan (chamada para oração). Este “despertador” serve-me também para rezar pela conversão do muezzin madrugador.Já começaram as minhas viagens ao interior do país percorrendo as dioceses e as suas paróquias, encontrando-me com os Bispos, os missionários, o clero e os fiéis leigos. A Igreja Católica aqui é muito jovem, tem pouco mais de 70 anos, não para de crescer e tem vários milhares de catecúmenos.
De acordo com o último índice de desenvolvimento publicado pelas Nações Unidas, o Chade ocupa o 163° lugar entre os 169 países que compõem a lista; e ao mesmo tempo – por causa da especulação originada pelo petróleo – a sua capital é – como o indicam alguns estudos – uma das cidades mais caras do mundo.
Por estas razões, a Igreja, com os poucos meios de que dispõe, dá uma importante ajuda à população graças aos seus centros de alfabetização, escolas, dispensários e hospitais. Para mim foi uma experiência totalmente nova visitar e dirigir umas palavras aos alunos de algumas escolas católicas, nas quais 90% dos estudantes são muçulmanos.
A diversidade linguística nalgumas zonas complica bastante a tarefa de evangelização. Conheci paróquias em que há sete línguas extremamente diferentes. Isto torna a tarefa pastoral muito complexa mesmo para os sacerdotes locais. Quando visito alguma destas paróquias tento ser breve e claro, pois quando começam as traduções em cada língua nunca mais se termina... e além disso, nem sempre se está seguro de que os “tradutores” que se encontram nas pequenas aldeias tenham entendido bem o que se disse.
Costumes locais
Quando se chega a um lugar, na maioria dos casos depois de centenas de quilômetros de carro, o costume local impõe um ritual simples, que consiste em permanecer sentado (apesar de que o que na realidade se deseja estar um pouco de pé) e beber, ao menos um copo de água.
Foi uma experiência totalmente nova visitar e dirigir umas palavras aos alunos de algumas escolas católicas, nas quais 90% dos seus estudantes são muçulmanos.
A vida de família decorre ao ar livre. Sobretudo no campo, onde se encontram muito poucas casas; no norte são tendas e no sul cabanas. Em ambos os casos, trata-se de uma só divisão, muito pequena e sem janelas. Na realidade, tanto as tendas quanto as cabanas não estão concebidas para serem habitadas, mas unicamente para dormir e guardar os poucos pertences.Uma profunda sede de Deus
É verdade que ao se tratar de uma evangelização muito recente, permanecem ainda na população muitos elementos de superstição, mas é também verdade – e quanto me alegrou notá-lo – que há uma profunda sede de Deus. Aqui todos, muçulmanos e cristãos, rezam muito; e todos querem conhecer mais a Deus e aprender.
Em cada um dos países para onde fui, até agora, enviado (Congo, Gabão, Eslovênia, Macedônia, Suíça, Liechtenstein, Cuba e Chade) quanto me continua a ajudar a entender as culturas e a viver intensamente o meu ministério no meio de pessoas tão diferentes aquilo que nos ensinou São Josemaria: «O mundo espera-nos. Sim! Amamos apaixonadamente este mundo, porque Deus assim no-lo ensinou: "sic Deus dilexit mundum...", Deus amou assim o mundo; e porque é o lugar do nosso campo de batalha – uma formosíssima guerra de caridade – para que todos alcancemos a paz que Cristo veio instaurar» (Sulco 290).
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23 de maio de 2013

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